Desconfiança mútua e traição generalizada

Desconfiança mútua e traição generalizada

Coluna do Estadão

02 de fevereiro de 2019 | 05h00

Kátia Abreu, Davi Alcolumbre e Renan Calheiros durante sessão do Senado. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO – 1.º/2/2019

Qualquer que seja hoje o desfecho da eleição para a presidência do Senado, a sessão de ontem mostrou que a Casa deverá ser motivo de tensão permanente para o governo do presidente Jair Bolsonaro. Não bastassem as feridas ainda abertas desde o impeachment de Dilma Rousseff (2016) e o conflito (quase geracional) entre calouros e veteranos, os ardis utilizados pelos apoiadores de Renan Calheiros (MDB-AL) e Davi Alcolumbre (DEM-AP) impregnaram o Senado com um clima de desconfiança mútua e traição generalizada difícil de ser dissipado.

Anote aí. Ao obrigar apenas Luciano Bivar, presidente nacional do PSL, a enfrentar um segundo turno para ganhar cargo na Mesa Diretora da Câmara, parte expressiva do plenário deixou um recado claro: não vai aceitar o fortalecimento do partido de Bolsonaro.

Suado. Bivar, por apertados 14 votos, será o 2.º vice-presidente da Câmara.

Empoderados… A vitória de Rodrigo Maia na disputa pela presidência da Câmara inflou ainda mais o capital político do DEM, que conta com três ministérios na Esplanada. O partido pode ficar ainda mais turbinado se Alcolumbre desbancar Renan.

… e divididos. Um triunfo de Alcolumbre será creditado ao ministro Onyx Lorenzoni (DEM), em guerra aberta com Maia. Na outra mão, a derrota e o consequente desgaste para o Planalto serão debitados imediatamente da conta corrente do chefe da Casa Civil.

Ficou distante. Apesar de ser o sonho dos deputados Eduardo Bolsonaro e Luís Felipe de Orleans e Bragança (o príncipe), dificilmente o PSL, partido de ambos, vai conseguir ficar com a presidência da a Comissão de Relações Exteriores.

Fila. Na prioridade de escolha das 25 comissões, o PSL está bem posicionado para duas, e deve escolher primeiro a valiosa Comissão de Constituição e Justiça e a de Fiscalização e Controle da Câmara.

Personnalité. João Doria (PSDB) causou ciumeira na bancada paulista tucana ao desfilar agarrado com Joice Hasselmann (PSL-SP) ontem na Câmara. Postou até foto em rede social.

Boa mesa. Maia passou a véspera da eleição na Câmara pingando de jantar em jantar em Brasília. Foi na casa de três aliados: Luis Tibé (Avante-MG), Hiram Gonçalves (PP-RR) e Alexandre Baldy (PP-GO).

Até na Abin. O ministro do GSI, general Heleno, demitiu um servidor da Abin por receber “vantagens indevidas em razão de suas atribuições”. Segundo Heleno, foi um caso isolado, ocorrido antes mesmo de ele chegar ao cargo.

SINAIS PARTICULARES. Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara

CRÉDITO: KLEBER SALES/ESTADÃO

 

Falha. Levantamento do ministro da AGU, André Mendonça, aponta a resistência da Renova, fundação criada para administrar as reparações às vítimas do rompimento da barragem de Mariana (2015), a cumprir obrigações acertadas.

In loco. Segundo a AGU, há atraso no reassentamento das famílias deslocadas e na contratação de estudos de impacto ambiental, além de falta de transparência. O ministro desembarca hoje em Brumadinho para evitar que a situação de repita por lá. A assessoria da Renova não respondeu à Coluna.

Com a palavra. Segundo a Renova, as ações de reparação estão sendo tomadas desde as primeiras horas após o rompimento da barragem do Fundão. Em três anos, afirma, foram destinados R$5,2 bilhões para 42 frentes de atuação, em 39 municípios.

Av. Faria Lima. Paulo Guedes convidou economista Samuel Kinoshita, que atuava em um fundo de investimento, para ser assessor especial voltado para assuntos macroeconômicos. Ele vai ficar em São Paulo.

CLICK. O senador Cid Gomes (PDT-CE) terminou de se arrumar para a posse, ontem, em um restaurante próximo ao Congresso. Almoçou com o irmão Ciro e assessores.

FOTO: JULIANA BRAGA/ESTADÃO

 

Temor 1. O MPF-MG está preocupado com um precedente aberto pelo TRF-1 ao determinar que um executivo da BHP Billiton (controladora da Samarco) envolvido no caso da barragem de Mariana não responda por homicídio doloso e lesão corporal, mas pelo crime de “inundação qualificada”.

Temor 2. Na prática, a decisão pode reduzir penas pela metade. O receio do MP é de que ela seja estendida para outros casos relativos às tragédias de Mariana e de Brumadinho.

PRONTO, FALEI!

FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADÃO

Randolfe Rodrigues (Rede-AP), senador“É um triste espetáculo, chegar a ponto de a senadora furtar o livro de ordem. Chegamos ao fundo do poço da política”, sobre o processo de eleição no Senado.

COM REPORTAGEM DE JULIANA BRAGA E MARIANNA HOLANDA

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