Delações revelam a lista dos insatisfeitos da Odebrecht

Delações revelam a lista dos insatisfeitos da Odebrecht

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Fábio Fabrini e Rafael Moraes Moura

30 de abril de 2017 | 06h30

Foto: Nacho Doce/Reuters

Seja na forma dos eufemísticos “vantagens indevidas” e “recursos não contabilizados”, ou como propina e/ou caixa 2 mesmo, o esquema da Odebrecht deixou um bloco de políticos frustrados e abriu a gaveta do rancor criada entre os dois lados. Em depoimentos prestados por executivos e ex-executivos da empreiteira, não faltam relatos de descontentamento, cobrança e até reclamação com os valores repassados no esquema que agora está sendo escancarado em praça pública.

Um dos nomes da “lista dos insatisfeitos” é o do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), um dos quatro políticos nordestinos que teriam sido subornados para destravar as obras do Canal do Sertão, trecho da Transposição do Rio São Francisco.

“Relatei a ele que a empresa estava destinando R$ 250 mil, em duas parcelas, fazendo o total de R$ 500 mil. Me recordo que ele não ficou satisfeito com o valor. Me transmitiu essa insatisfação achando que estava pouco”, relatou o executivo Ariel Parente, em depoimento à Procuradoria-Geral da República (PGR).

O valor de R$ 500 mil via caixa 2 também não agradou ao marido da senadora Marta Suplicy (PMDB-SP), o empresário Márcio Toledo. O dinheiro foi destinado para a campanha da ex-prefeita de São Paulo ao Senado Federal em 2010, segundo o ex-executivo da empreiteira Carlos Armando Guedes Paschoal.

“Ele (Márcio Toledo) me chamou pra conversar pessoalmente. E manifestou um grande descontentamento, que era uma desconsideração, porque, afinal, ela (Marta) tinha sido prefeita de São Paulo… (Ele) Não ficou satisfeito com os R$ 500 mil e o tempo todo até o final da campanha reclamou muito do valor”, disse Paschoal.

Outro político decepcionado com os repasses da Odebrecht foi o atual ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho (PMDB), afirmou o executivo Mário Amaro da Silveira. Segundo o delator, Barbalho correu o risco de ficar sem nada depois de fazer um pedido “fora de cogitação” – queria R$ 30 milhões para a sua campanha ao governo do Pará em 2014.

“Eu falei, ‘Vou levar isso até a nossa presidência lá por dever de ofício, mas acho que é uma coisa totalmente fora de cogitação'”, contou Silveira. De acordo com Silveira, o valor pedido foi gradualmente reduzido ao longo da conversa para “pelo menos 20, pelo menos 10, pelo menos R$ 5 milhões”. “A gente até cogitou de não dar nada, um cara que pede R$ 30 milhões, né, mas depois, o Fernando (o ex-presidente da Odebrecht Ambiental Fernando Reis) falou assim, ‘Vamos oferecer o que a gente tem conta de oferecer'”, contou Amaro. No final das contas, a campanha de Barbalho teria recebido R$ 1,5 milhão.

A frustração também existia do lado da Odebrecht. Em depoimento, Silveira reclamou da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), que recebeu R$ 500 mil de contribuição para a campanha eleitoral. “A senadora foi eleita, mas nunca fez nada por nós no Tocantins”, disse. Os políticos negam irregularidades./COLABOROU MÁRCIO ROCHA, ESPECIAL PARA O ESTADO

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