Exclusivo. “Crianças pagam caro por rodízio de padrastos em casa”, diz diretor de comunicação da Polícia Civil do DF

Exclusivo. “Crianças pagam caro por rodízio de padrastos em casa”, diz diretor de comunicação da Polícia Civil do DF

Naira Trindade

15 de maio de 2017 | 15h15

As opiniões do diretor de comunicação da Polícia Civil do Distrito Federal, delegado Miguel Lucena, no início desta tarde causaram revolta no grupo de Whatsapp da Comunicação da Polícia Civil. Lucena afirmou que as “crianças estão pagando muito caro por esse rodízio de padrastos em casa”, alegando ser responsabilidade da mulher casos de estupro contra seus filhos dentro de casa. Após a divulgação da nota pela Coluna, Lucena foi exonerado. 

Em questões de segundos o comentário foi rebatido por várias jornalistas que acompanham o grupo. O delegado continuou dizendo que as pessoas são da “turma do politicamente correto, essa praga que assola o mundo”. Na sequência, diante da polêmica, Lucena ressalta que não fala em nome da Polícia Civil, apenas emite opinião “pessoal”. “Não sou machista, nem defendendo bandido. Só acho que precisamos avançar nas discussões sobre as responsabilidades de todos com os rumos da sociedade”, disse.

“A vítima é a criança. A mãe, às vezes, é co-responsável e cúmplice”, escreveu Lucena. Questionado se realmente pensa que a culpa é da mulher, ele responde: “Depende. Se leva o primeiro que encontra no bar para dentro de casa, é”, admitiu. Lucena ainda se defende alegando que os jornalistas que acompanham o grupo estão “acostumados com hipocrisia”. Após a discussão, o delegado deixa o grupo.

À Coluna, Lucena confirmou a conversa no grupo, disse que já escreveu artigos e inclusive um livro sobre o tema: Os desembestados. A obra resume que a sociedade permissiva e supostamente libertária deixou para trás referências e princípios como “o medo, a vergonha e a culpa”, considerados, por ele, os freios para  não cometer crimes.

“Na medida em que os parceiros vão sendo trocados, os riscos aumentam. Isso nas classes mais populares, que sofrem mais com esse problema, que são áreas mais pobres e mais desassistidas, menos instruídas. Se a gente ficar tampando o sol com a peneira, discutindo em categorias de machismo e feminismo, a gente não vai resolver o problema, vai viver mergulhado na hipocrisia”, afirmou Lucena.

O caso que motivou os comentários de Miguel Lucena é uma investigação da 14ª Delegacia de Polícia, que fica no centro do Gama, a 40km do Plano Piloto. A mãe de uma criança de 11 anos registrou a ocorrência pela manhã após a menina ter sido violentada pelo padrasto, de 32 anos. A criança tinha marcas de violência pelo corpo. A mãe disse à polícia que os filhos foram ameaçados de morte caso contassem o que aconteceu. A polícia não sabe o paradeiro do suspeito.

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