Bruno Covas e a síndrome do “isentão”

Bruno Covas e a síndrome do “isentão”

Alberto Bombig

27 de fevereiro de 2019 | 10h52

Foto: Tiago Queiroz/ESTADÃO

Há muita gente no PSDB preocupada com as eleições municipais do ano que vem, especialmente na capital paulista. Em reservado, experientes líderes avaliam que elas podem aprofundar a crise do partido e que os cenários eleitorais até agora à disposição sintetizam à perfeição a crise existencial tucana, espremido entre o petismo e a onda conservadora levantada por Jair Bolsonaro. Não se trata apenas de ganhar ou perder, mas sim de mostrar que o PSDB ainda pode ser uma opção viável de poder, um pólo irradiador de ideias e de discursos, um exemplo de administração. Tudo isso, claro, depende em larga medida de Bruno Covas, neto de Mario Covas (1930-2001), um dos fundadores do partido em 1988.

A pouco mais de um ano e meio da eleição os entraves são muitos para Bruno Covas. Conforme mostrou a Coluna do Estadão, desta quarta-feira, 27, um veterano de campanhas eleitorais em São Paulo acha que o maior desafio de Bruno Covas (PSDB) está longe de ser a provável candidatura do PSL à Prefeitura. Antes de encarar Joice Hasselmann, Major Olímpio, Janaína Paschoal ou qualquer outro campeão de votos do partido de Jair Bolsonaro,o prefeito precisa fazer a lição de casa: resolver o caos em que se transformou a cidade, transtornada pelas pontes e viadutos sob risco, repleta de buracos e com os problemas crônicos de sempre na saúde e na educação.

Conforme esse observador, Covas ainda não construiu uma marca de sua gestão, outro requisito fundamental para chegar forte em busca da reeleição no ano que vem. Também no campo da imagem, ele acha que o prefeito tem de transmitir ao eleitor uma imagem pessoal mais afirmativa, um perfil que vá além de ser o antípoda do governador João Doria (PSDB), algo em que Covas vem se esforçando. Ressalvadas exceções, paulistanos costumam eleger personalidades fortes.

Esses seriam os pré-requisitos básicos para Bruno Covas disputar votos no grupo de 53% dos eleitores paulistanos que escolheram Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2018. Nas contas de parte do PSDB, os 16% de Fernando Haddad em 2018 ficarão com o PT, seja quem for o candidato do partido e aconteça o que acontecer. Se o escolhido pelos petistas for o próprio Haddad ou a mulher dele, a professora Ana Estela, a situação do prefeito tucano se complica ainda mais porque eles têm boa inserção justamente num segmento no qual Bruno vem apostando suas fichas até agora, a classe média “progressista” de centro-esquerda das áreas centrais.

É claro que há uma opção no centro clássico para Covas, e ele vem dando mostras de que a escolheu. Quer buscar os eleitores que votaram em Ciro no ano passado (11%) na capital e os de Geraldo Alckmin (9%). Nessa faixa, no entanto, o risco é a provável pulverização de candidaturas, a exemplo do que ocorreu no ano passado. Márcio França (PSB), Celso Russomanno (PRB), Henrique Meirelles (MDB) e Andre Matarazzo (PSD) ensaiam candidaturas que, uma vez confirmadas, vão concorrer pelos votos de centro.

Em resumo, os tucanos avaliam ser praticamente impossível vencer a eleição do ano que vem em São Paulo sem conquistar uma parcela expressiva de votos na centro-direita. E aí, sim, o PSL se torna uma ameaça real e concreta. Após o derretimento do malufismo e empurrado pelo PT, o PSDB acabou ocupando o pólo da direita no espectro partidário paulista. Mas foi quase um movimento inercial. Em termos programáticos, os tucanos pouco fizeram para conquistar definitivamente esse eleitorado. O advento do “bolsonarismo” ocupou a pista da direita em São Paulo. Para vencer, Bruno Covas terá necessariamente de bater retrovisor com o PSL. Como fazer isso?

No PSDB e fora dele, não são poucos os que acreditam ser possível derrotar o bolsonarismo e seus candidatos sem uma receita radical de direita, apostando na social democracia, porém sem precisar flertar com o petismo. Recorrendo novamente ao veterano de campanhas eleitorais em São Paulo, é preciso convicção na defesa dos ideais que nortearam a fundação do PSDB em 1988 pelo avô de Bruno, junto com Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin e outros. Essa convicção o prefeito de São Paulo ainda não demonstrou com as poucas ações de sua gestão, que novamente repete um erro recente do partido, o de transmitir a sensação de que governa para poucos e privilegiados. Qual o projeto de Covas para a periferia?

Covas até agora preferiu ser capturado pela síndrome do “isentão” (um deboche sobre aquele que evita tomar posições). Ou alguém acha que adotar certas posturas apenas para se diferenciar de um Doria muito identificado com Bolsonaro interessa aos eleitores da periferia, por exemplo? Ou alguém acha que nomear o empresário Alê Youssef, que já foi ligado ao PT e ao PSOL, para a Cultura bastará para convencer a classe média progressista da área central de que o PSDB voltou às suas origens?

Há lufadas de ar fresco na disposição de criar o Parque Minhocão e de abrir canais de diálogo com setores por ora afastados do partido. Mas é pouco ou quase nada para dar um discurso ao PSDB, refundar a social democracia ou qualquer coisa do gênero. Se há um caminho pelo centro, ele também carece de projetos, propostas, posicionamento claro e coragem.

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