Ao recusar ministério, Serraglio dá o troco em Temer

Ao recusar ministério, Serraglio dá o troco em Temer

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Andreza Matais

30 de maio de 2017 | 12h47

Foto: Joedson Alves / EFE

O ex-ministro da Justiça Osmar Serraglio nem esperou reunião que teria com o presidente Michel Temer na tarde desta terça-feira. Recusou o convite que lhe chegou por intermédio do líder do PMDB na Câmara, Baleia Rossi (PMDB-SP), para assumir o Ministério da Transparência. Ironicamente, foi a forma nada transparente como se deu sua demissão da Justiça que levou o governo a criar sua mais nova crise.

Numa nota curta endereçada ao presidente Michel Temer, Serraglio avisa que volta à Câmara para prosseguir seu trabalho “em prol do Brasil que queremos”. Nenhuma palavra sobre se usará o mandato para apoiar o presidente Temer, que vive numa corda bamba desde que atingido pela delação de Joesley Batista. Temer é investigado por corrupção, obstrução à Justiça e organização criminosa. E ainda pode ter o mandato cassado pelo TSE na próxima semana.

A saída de Serraglio, antes mesmo de conversar com Temer, é o troco que ele deu no presidente. Temer não telefonou para o peemedebista, seu colega de partido, até hoje. Já se passaram dois dias da demissão. Serraglio soube pela Coluna que seria substituído, assim como quem seria seu sucessor.  Não é o primeiro nem o último a passar por isso. O resultado é sempre desastroso.

Interlocutores de Temer dizem que o presidente repassou para a bancada a missão de convidar Serraglio para não passar a impressão que fez uma troca de ministros. Serraglio na Transparência e Torquatro Jardim na Justiça. A cautela não ajudou em nada.

Notabilizado por ter relatado a CPI dos Correios, Serraglio sempre foi um deputado independente. Na época da CPI, foi indicado para segurar as investigações. Concluiu os trabalhos com um relatório duríssimo que embasou a denúncia formal do esquema do mensalão.

Pelo currículo conquistado, se aventurou à revelia da bancada do PMDB na Câmara a ser candidato a primeiro-secretário em 2007. Foi eleito. Passou pelo cargo sem ser atingido por nenhuma denúncia. Teve uma conduta austera.

Mais recentemente, conseguiu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a mais importante da Casa. A indicação era  para que cumprisse uma missão: ajudar Eduardo Cunha a se livrar da cassação do mandato. Fez tudo o contrário, mesmo defendendo publicamente anistia a colega peemedebista.

Na Justiça ele entrou mudo e saiu calado. Não saiu em defesa de Temer, não interferiu na Polícia Federal (mesmo tendo sido interceptado pela Operação Carne Fraca – o que seria motivo para alguns, que o diga Aécio Neves), não fez média com o Supremo. Seus pecados.

Quem conhece o histórico de Serraglio, não tinha dúvidas de que ele, mais uma vez, seguiria sua própria intuição e diria um não ao presidente da República. Se ele tinha um problema, o devolveu para Temer: Rocha Loures é o abacaxi da vez. Com a ida de Serraglio para a Câmara, ele desaloja do mandato seu suplente, o ex-assessor de Temer que recebeu uma mala de propina de Joesley Batista.

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