A miopia política de Lula ao criticar manifestos suprapartidários

Alberto Bombig

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Foto Sérgio Castro / Estadão

Lula voltou a comprovar que seu projeto prioritário para o País é apenas um e somente um: a volta do PT ao poder central. Ao rechaçar em reunião o endosso a manifestos suprapartidários e da sociedade civil, como o Estamos Juntos, o ex-presidente também dá sinais de ter sido acometido por grave miopia política: os tempos mudaram, a democracia está sob ameaça e, principalmente, os petistas deixaram faz tempo de ter força para, sozinhos, representar um caminho seguro rumo a qualquer ideia de modernidade. Em sentido contrário, caminharam no sentido do fisiologismo e dos desvios éticos, até o ocaso de suas gestões.

“Eu não tenho mais idade para ser maria vai com as outras. O PT já tem história neste país, já tem administração exemplar neste país. Eu, sinceramente, não tenho condições de assinar determinados documentos com determinadas pessoas”, disse Lula em encontro do partido nesta segunda (1.º/6), escancarando comportamento adotado por ele em outros momentos cruciais da história brasileira, basta lembrar o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a coalizão em torno de Itamar Franco (1930-2011).

O Estamos Juntos reúne, por exemplo, Luciano Huck, Fernando Henrique Cardoso, Caetano Veloso e Fernanda Montenegro. Prega, em texto, a defesa da “vida, liberdade e democracia”. Diz que governantes devem exercer “com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o País”. Mas, para Lula, referendar essas ideias é, antes de qualquer coisa, colocar azeitona na empada de rivais políticos, alguns com potencial de chegar à Presidência um dia, como Huck. Cabe perguntar: com qual parte do manifesto Lula não concorda?

A miopia política de Lula não enxerga que o futuro do Brasil está em jogo neste momento, acima de partidos e de ideologias. Não vê também que ele fará mal ao PT e à oposição se continuar mirando apenas o próprio umbigo, seja porque não tem mais força para, sozinho, mobilizar as massas e conquistar novos corações e mentes, seja porque, com esses gestos, fortalece Jair Bolsonaro. A menos que esse seja o verdadeiro projeto de poder de Lula: apostar na polarização, rachar ainda mais o País e, a exemplo de Bolsonaro, jogar com o caos, mas com sinal contrário.

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