A ‘Carruagem’ não vai parar, Maklouf

A ‘Carruagem’ não vai parar, Maklouf

Alberto Bombig

16 de maio de 2020 | 13h10

Maklouf e eu na rádio Eldorado, em agosto de 2019 (ainda na foto, Leandro Cacossi e Emanuel Bomfim)

Ao longo dos últimos quatro anos, Luiz Maklouf Carvalho me enviou regularmente e-mails intitulados “Carruagem”. As mensagens semanais quase sempre davam conta do andamento de suas incansáveis e rigorosas apurações, com uma ou outra observação sobre política, jornalismo, filmes, livros e dicas de shows de jazz disponíveis na internet. Os mais comemorados por mim terminavam anunciando sua visita ao Estadão: “Salve! Vou dar um pulo aí”.

No horário combinado, ele adentrava a imensa redação, altivo e ativo, caneta e papel no bolso da camisa e, às vezes, um pequeno guarda-chuva, que ele jamais deixou esquecido nas muitas mesas pelas quais passava vendendo suas pautas e, principalmente, colhendo informações e observações, pedindo sugestões, ideias e enfoques. Depois, o café (descafeinado) tradicional. Raramente cantava suas glórias jornalísticas de décadas passadas, o que interessa ao “Velho Mak”, como eu o chamava, era o futuro, as histórias ainda a serem contadas.

As únicas reclamações, claro, como convém aos bons repórteres, eram por espaço: “Cortaram meu último texto”, lamentava, para, logo em seguida, elogiar as edições cirúrgicas dos perfis, das reportagens e das muitas entrevistas que ele realizou nesta última, intensa e derradeira passagem pelo Estadão. Havíamos nos conhecido na redação da revista Época, anos antes. O Estadão transformou convívio em amizade.

Em meados de 2018, a “Carruagem” tirou meu chão quando o Mak me contou da doença. Pelo telefone, porém, ele me convenceu de que estava tudo bem, que ia enfrentar e vencer mais uma e que, com autorização dos médicos, continuaria trabalhando. E como! Os e-mails, então, passaram a trazer curtas menções sobre o estado de saúde dele para, na sequência, emendar frases do tipo: “Já tinha marcado para a próxima segunda-feira a entrevista com o juiz federal etc”. Claro, a “Carruagem” não ia parar por causa de uns inoportunos “invasores”, como ele se referia aos tumores no pulmão. Terminava os e-mails com um “Vamo que vamo!”

Foi também nesse período que o Mak tomou a decisão de publicar no Estadão longos relatos sobre sua doença. Um dos melhores escritores do jornalismo brasileiro contou sobre as dúvidas do tratamento, as descobertas dos médicos e, principalmente, escancarou sua inabalável confiança no poder da palavra e da informação como antídotos para todos os males e desgraças do mundo. Mak produziu muito e com qualidade nesse período. Nos atordoou com seus pedidos por espaço no jornal impresso. Fome de viver e de escrever.

Em 2019, a “Carruagem” me deu a ótima notícia do livro O Cadete e o Capitão (Editora Todavia). A repercussão da obra revigorou o Mak. Aliás, dois assuntos faziam os olhos dele brilhar de emoção e entusiasmo: falar dos filhos e dos netos e de seus muitos livros publicados. Uma prole extensa. Nas visitas à redação, sempre tirava um tempinho para contar dos netinhos (e saber como estavam os meus filhos) e falar de seus livros. Tinha especial predileção por Contido a Bala (Editora Cejup), Mulheres que Foram a Luta Armada (Editora Globo) e Cobras Criadas (Editora Senac) e este último e mais recente, uma espécie de biografia da vida militar de Jair Bolsonaro.

Em paralelo ao lançamento do livro, Mak mergulhou numa série de perfis sobre novos personagens da política brasileira. Com ela, ganhou o prêmio Estado de jornalismo de 2019 nessa categoria. Não pôde comparecer à premiação, mas enviou mensagem carinhosa de agradecimento, orgulhoso de seu feito, como se fosse um foca recebendo a primeira glória.

Na virada de 2019 para 2020, me escreveu avisando que passaria no Estadão para buscar seu diploma e o voucher da premiação, queria colher a honra pessoalmente: “Beto, Feliz 2020! Vou dar um pulo aí na segunda, tipo 14/15h. Vai estar?” Claro, estávamos todos. Nas catracas, encontrou colegas que voltavam do almoço e foi premonitório: “Se eu voltar para o hospital, será difícil sair de lá”. Mak ficou umas quatro horas na redação. Circulou por todas as salas e mesas, sempre no mesmo ritual, um pouco mais ofegante, mas ainda muito disposto. Ao final, deteve-se na minha sala e, pela primeira vez, fez longo relato sobre sua juventude e início de carreira, período sobre o qual pouco havia me contado até então.

Quando o cansaço já era evidente, despediu-se de maneira afetuosa e saiu, pela primeira vez, sem levar o guarda-chuva. Pensei: será que é hoje? Não, não era. Ele voltou minutos depois para pegá-lo, afinal, era janeiro, e como chovia em São Paulo! Aproveitou para dizer: “Vou te mandar os meus livros que você ainda não leu para você me dizer o que acha”. A “Carruagem”, porém, chegou antes dos exemplares: “Beto, caro, saudações. Novidades para você acompanhar e repassar: estou internado desde segunda, no andamento da segunda químio. Descobriram que a comida estava indo pro pulmão. Puts. Resultado: dieta zero e sonda nasal. Pneumonia também. Mas tô tocando. E vamo que vamo!”

Vamo que vamo. Mas para onde, Velho Mak? Não importa muito saber, ele responderia, tenho certeza. A Carruagem tem de continuar mirando o futuro, porque há sempre uma boa história para ser contada, porque o jornalismo não pode se abater nem se curvar diante de qualquer tipo de “invasores” e de adversidades. A Carruagem perdeu um de seus grandes. A Carruagem não vai parar, Maklouf.

Vá em paz.

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