Vocação de Tatu

O tempo flui e reflui; a situação do governo Dilma, novamente, se agrava. Num quadro complicado como o atual, não se pode esbanjar oportunidades.

Carlos Melo

31 de agosto de 2015 | 00h07

Há meses, escrevi que a presidente Dilma é incorrigível (clique aqui).  Houve quem discordasse e guardasse esperanças de que a crise a corrigisse. Pode — ou poderia — ser. O erro é constitutivo do acerto; ensina e todos aprendem com ele. Um conselho antigo diz que a primeira providência para sair do buraco é parar de cavar. No entanto, com método e determinação, Dilma e seu governo aprofundam o próprio abismo. Parecem possuir alma e vocação de tatu: cavam com afinco e para baixo, supondo que práticas e caminhos iguais possam levar a destinos diferentes.

Há duas ou três semanas, Dilma ganhou oxigênio. Ironicamente, no auge da crise, acudiram-lhe o grande empresariado e parte da mídia, preocupados com riscos de retirar Dilma bruscamente do poder – o que vitimizaria o PT e viabilizaria Lula. A partir da ação da PGR, Eduardo Cunha foi suavizado. A alucinação de uma nova eleição, em 90 dias, com Cunha na presidência da República, foi aplacada no PSDB. De forma que o governo entrava no caminho da rearticulação da base, a partir do Senado. E, com acordão ou não, o tempo parecia parar para que Dilma se reorganizasse. Entre um quadro de doença crônica ou aguda, optou-se pelo mal menor — no curto prazo.

O cenário de impeachment que se afigurava, rapidamente, desvaneceu; o TCU mostrou boa-vontade, seus membros puseram-se mais comedidos. Desorientada a oposição foi ajustar a bússola pelos ponteiros de Fernando Henrique. Sabendo que seus conselhos à Dilma não seriam, evidentemente, ouvidos, o que o cardeal tucano pretendeu foi mesmo pontificar e reunificar sua igreja: o impeachment é custoso, comporta risco – como o empresariado percebera –; a impugnação, um caminho ainda mais perigoso. De seu ponto de vista, o melhor seria a hipotética e improvável renúncia. Sem Dilma, a alternativa seria Michel Temer. Nada além; sem sonhos, aventuras ou ressentimentos.

Em que pese o tom explosivo e até arrogante da mensagem do ex-presidente, o fato é que fez serenar ânimos. Temporariamente, pelo menos, FHC enquadrou Aécio e Alckmin.  E, como Dilma não é de entregar os pontos, intuía que o caminho seria o da recomposição, mínima que fosse, até 2018. Não é improvável que FHC agisse articulado com o PIB. Governo fraco, sim. Mas, ainda assim o país atravessa seu rio, na vida que segue; normalidade democrática, sem abalos. Em três anos, as eleições reconstruiriam as expectativas. A ninguém, responsável, agrada que o barco vire.

Assim, com águas aparentemente plácidas, que fazer com a sorte dada à Dilma, nessa janela de oportunidade? Fácil falar, difícil fazer; necessário pensar. Antes de tudo, consolidar a rearticulação que se esboçava; somar forças com campos diferentes; propor uma trégua, buscar a união nacional. Propor um novo ministério, credível e socialmente respeitado – até Collor conseguiu fazer isto. Por fim, abrir o coração, admitir erros; apontar os riscos, sinceramente. E, mesmo que a oposição se negasse, e se negaria, convidá-la a conversar – Aécio que ficasse com o ônus de não apertar a mão que uma senhora, a presidente, lhe estendida, ainda que tardiamente.

Além disso, claro, o básico elementar: não perder aliados, não permitir novas defecções; impedir altercações dentro de casa; cessar fofocas, maledicências, cizânias. Agenda positiva, Agenda Brasil, isso tudo é muito difícil, retórico, espuma de marqueteiro. Mas, agenda mínima, uma agenda de recomposição, poderia ser negociada, sim, com setores que, naquele momento, asseguravam a paz à Dilma, o empresariado. Contar com seu poder de formação de opinião e pressão política sobre o Congresso.

Sim, como tudo, dependeria de engenho e arte. Inventou-se a política para isto; pressupõe agilidade de raciocínio e capacidade de comunicação. É necessário ousar, é imperativo tentar. Verdade que notícias econômicas vieram péssimas — mais um motivo para buscar a conciliação. A recessão é indesmentível e o cenário internacional, um filme de terror. Mas, a dramaticidade talvez ajudasse a chamar atenção aos apelos. O aperto da economia e o relógio do desgaste obrigavam a acelerar o processo. E Dilma acelerou; em marcha-à-ré.

Mais uma vez, errou no diagnóstico: não compreendeu que o tempo que lhe fora dado era finito e que não há meia humildade. “A crise somente se configurou após a eleição”, disse. Ora, ora, ora… A escolher: falta de sinceridade ou declaração de incompetência. Nada disso pega bem. Ao mesmo tempo, estimulou o “chega prá lá” em Temer. O vice, coordenador político, foi afastado do centro da cena, tiram-lhe a escada. Pendurado, naturalmente pediu para descer da nuvem da articulação e, com elegância, posicionou-se à espera de fatos novos e novos erros da presidente — nada improváveis. Dilma deu Temer como alternativa de poder a empresários, à mídia e até à oposição. Desinteligência é isso.

Não bastasse a perda de timing e de aliados, o erro estratégico com Temer, começa também a reproduzir a velha e perigosa ambiguidade na economia. Sinaliza caminhos que se excluem e somam zero: o ajuste inacabado e moribundo ao lado do ativismo econômico de um estado agonizante. Não consegue reinventar-se. Ao murchar Joaquim Levy e inflar Nelson Barbosa gera mais dúvidas e especulações do que recompõe credibilidade e demonstra saídas. O exemplo da natimorta CPMF é apenas a evidência de não saber o que fazer.

O governo volta às cordas, a boa vontade de algumas semanas tende a diminuir; declarações recentes já demonstram que está diminuindo. A sinceridade orçamentária definida no domingo (30 de Agosto) — admitir que o orçamento de 2016 terá um rombo gigantesco — nem capitulação chega a ser. É mesmo escolha sem alternativa. Assim como os ouvidos dados, neste caso, a Michel Temer, além da ironia expressam apenas um gesto possivelmente tardio.

Enquanto isso, as ruas ficam ainda mais indóceis; bombas caseiras estouram de um lado; de outro, e por enquanto, apenas um boneco foi atingido. Que não passe disto.  O fato é que o cilindro de oxigênio ofertado a Dilma perde pressão. E o ar se rarefaz novamente. Calor, asfixia e claustrofobia são sintomas de quem está sendo enterrado vivo. Não há balão de oxigênio que suporte muito tempo. É preciso parar de cavar e emergir rápido do fundo desse poço.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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