Vírus oportunista destrói o hospedeiro

Vírus oportunista destrói o hospedeiro

Carlos Melo

31 de janeiro de 2021 | 21h46

 

Jair Bolsonaro, presidente da República Foto: Dida Sampaio/ Estadão

 

Eleição também é “caixinha de surpresas”. Mas, o comportamento de grande parte dos parlamentares e, sobretudo, as reações de Rodrigo Maia levam a crer que as disputas na Câmara e no Senado já podem estar resolvidas a favor dos candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro, sacramentando sua aliança com o Centrão. Até aí, vida que segue.

O problema está na consistência programática da eventual vitória: nesses meses, nada que demonstrasse superação da crise pôde ser observado. Não se discutiu agenda para a tragédia econômica, política e sanitária. O debate se resumiu ao arrendamento de espaços no Ministério e à farta distribuição de recursos públicos, com vistas a 2022: o fisiologismo velho da chamada velha política, antes abominados pelo bolsonarismo.

A experiência mostra que o fisiologismo é bicho cuja voracidade come o dono. O uso leva ao vício e o vício à prática constante; não há acordo perene. Ele carece de limites e projetos, sem o quê o mais comum é que a cada nova votação irrompam novas demandas e pressão por recursos escassos. Irresponsabilidade ao infinito e além.

O desafio é enorme: conter a pandemia, proteger desassistidos, estancar a crise, retomar o emprego; não transigir com as contas públicas, pacificar o país. Algum Auxílio Emergencial será inevitável; virão novos impostos? Medidas para ontem que exigirão apoio na sociedade e três quintos de votos, nas duas Casas. Como fazê-lo no padrão de elaboração, liderança e diálogo observados; como fazê-lo na base da razão fisiológica?

Ninguém poderá dizer qual será o futuro. Previsões armam ciladas e a história adora zombar de profetas. Mas, ao se comparar o tamanho dos desafios à estatura dos virtuais vitoriosos, pode-se, sim, intuir que o futuro permanecerá como o presente: pouca ou nenhuma perspectiva de arrumação; a imanência do caos. Diante do desespero por blindagem e da inabilidade de Jair Bolsonaro, o fisiologismo esfrega as mãos e sorri; quererá sempre mais. Ao final, o vírus oportunista destruirá o hospedeiro.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper

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