Um não à futura “invasão do Capitólio”

Um não à futura “invasão do Capitólio”

Carlos Melo

19 de fevereiro de 2021 | 20h17

Plenário da Câmara dos Deputados Foto: Dida Sampaio|Estadão

 

Na Quarta de Cinzas, o STF pôs fim ao carnaval do bolsonarismo. A paciência com a folia de desrespeito institucional e pessoal acabara; também se esgotara a condescendência com o jogo de “morde e assopra” do presidente da República. Dali para frente, “bateu, levou”. Quem duvidasse, que tentasse a sorte.

Instituições se alicerçam no respeito que inspiram. Para merecê-lo, devem darem-se ao respeito próprio. A unanimidade do STF foi o sinal de que o Supremo se respeitava, em que pese justificadas críticas que, democraticamente, se faça a ele. A manifestação de seu Decano foi insofismável.

Inicialmente, as bravatas do beligerante deputado e da tropa não se deram conta da profundidade e risco do mandado exarado por Alexandre de Moraes. Somente depois as fichas caíram: o Supremo fez risca no chão, não seria conveniente ultrapassá-la. Por três motivos.

Primeiro, prerrogativas parlamentares e direitos de expressão têm limites definidos em lei. Não foram construídos para fortalecer a quem os pretende destruir. Defender o AI-5 e recorrer à suposta liberdade de expressão não faz sentido. Mais que nonsense, é oportunismo. Dar ouvidos ao farisaísmo seria abrir as portas para a futura “invasão do Capitólio”.

Segundo, pesou à maioria da Câmara o que viria depois, na hipótese de um conflito aberto com o STF. Impasse institucional não interessa; a boa política aconselha moderação e diálogo. Reconstruir relações, manter pontes desobstruídas é da natureza parlamentar. O bolsonarismo vem desorganizando isso. Aquiescer à decisão do Supremo seria importante e necessário freio de arrumação nessas relações.

Por fim, viu-se que Daniel Silveira e e seu grupo, felizmente, não representam a maioria da sociedade. O falatório que produzem é mais demagógico que político: extremismo de conveniência que não hesita compor com o que diz deplorar. A própria submissão de sua defesa revela um leão sem dentes.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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