Timing, poder, abismos. Uns e outros.

A propósito da cena política.

Carlos Melo

06 de agosto de 2015 | 18h50

Tenho evitado escrever (muito) nestes dias de crise. Aprendi cedo que quem fala de mais dá bom dia a cavalo. Nos tempos atuais, dá bom dia a dromedário também. Tudo está cheio de si e de seu contrário, o ambiente ferve e pingo vira letra. Para dizer o óbvio, basta o silêncio. Para trazer novidades, é preciso que elas de fato existam. Especulações e aflições, deixo para as horas de meu charuto. Mas, quem pode se furtar a exalar esse mal-estar?

De modo que as notícias são sabidas e reproduzidas aos borbotões pela hipermídia em que se faz este mundo dos nossos tempos. O processo segue o fio desencapado que tenho demonstrado já faz algum tempo e creio ser desnecessário dizer “eu disse”. Certamente, sabemos como chegamos a esta quadra da história: uma série de esgotamentos – político, econômico, de lideranças – e um festival de erros vistos assim “nunca antes na história deste país”. Já disse que Dilma é incorrigível (clique aqui para reler); a presidente de fato foi tão persistente em cavar buracos que se vê diante de muitos abismos.

Agora, seus pedidos tardios de arreglos cheiram à capitulação; humilha a quem solicita e constrange a quem assiste; a tal da vergonha alheia que muitos – a favor ou contra — temos sentido. Em política, há o “tempo da política”; ter o relógio ajustado com ele é mesmo uma arte; adiantá-lo, revela o medo; se demorar, já era, fica tarde. De tal modo que, mesmo para clamar unidade, há um timing; cabe, sobretudo, nos discursos de vitória ou de posse. Uma chance perdida, às vezes, está perdida para sempre.

E assim, o cerco vai se fechando em torno de Dilma e do PT, limitando alternativas e despertando o desespero de uns e a ansiedade de outros. O fato é que, num certo estágio, o poder torna-se o único elemento da política; nada é mais importante do que ele. Note que irônico: Dilma pode ser destronada, sem nenhuma acusação direta sobre si; Renan e Cunha podem ser preservados, mesmo com toda desconfiança sobre seus ombros. Qual a diferença entre eles? O poder. Quem tem, quem não tem. Não é moral, não é justo, não é romântico; nem certo, nem errado. É política. Difícil admitir, mas é política – a mais humana e a mais cruel das atividades do Homem.

Dilma está desempoderada, perigosamente (para si) desempoderada. Não expressa mais uma vontade a ser seguida, sequer uma ordem a ser obedecida, em que pese o Diário Oficial que assina. Paga o pato de muitos erros, inclusive os seus – os quais tem dificuldade de admitir. Expressa certa indiferença, um ar blasé; mas nem sua atitude olímpica esconde que está só. Ademais, assistir a Aloízio Mercadante baixar a crista é mesmo sinal eloquente de que o poder se dissipou. Mais ou menos como pedir para a Alemanha parar de marcar gols.

Qual será o desfecho disso tudo? Quem poderá dizer, sem nenhuma sombra de dúvida ou de torcida? Dilma enfraquecida até 2018, Dilma recuperada? Temer como síndico da catástrofe? Uma nova eleição: Aécio, Lula, Serra, Alckmin, Marina? Ou o J. Pinto Fernandes, que ainda não entrou na história? A história se faz ao mesmo tempo em que a fazemos, sem percebê-la.  É assim.

Uns e outros

Amigos queridos, cheios de coração, moral e ressentimento, igualmente se dividem: uns querem o justiçamento; outros, a condescendência. Ambos julgam – condenando ou absolvendo – a partir do que avaliam como “as intenções” de Dilma, de Lula, do PT e de seu grupo. Poucos admitem a força das circunstâncias e a fraqueza do ser humano. De modo que, para uns, trata-se do mal em raiz; para outros, o bem em flor mal compreendida. Uns condenam integralmente o PT e sua base – basta ser petista para ser mau caráter; outros, permitem-se perdoar pelo saldo positivo resultante da equação que lhes sai do coração e, então, os crápulas são os outros. A vida é mesmo bem mais complexa do que os nossos sonhos de amor e juventude. Sobretudo, quando a juventude já passou.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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