Sono, pesadelos, tumores e realidade

Ruminações de noites mal dormidas, de dias de sufoco. Nada além.

Carlos Melo

08 de março de 2016 | 12h13

Troco mensagens com um amigo – cientista político de primeiro time – que, ao final, deseja-me boa noite, com uma ponta de ironia: “… se é que você consegue ter uma boa noite em tempos como estes”. Lembrei-me do início do dia que tivera: naquela manhã, minhas olheiras e o cansaço incomum me diziam que não durmo bem há dias. Que, mesmo que adormeça, não descanso. Difícil definir o que é fantasia, o que é realidade. Os fatos correm, no Brasil, no ritmo de um pesadelo alucinante. Mesmo agora, não sei se sonho que escrevo.

Para quem estuda política brasileira e talvez não tenha estudado mais nada que se não isto, o momento é grandioso; que ambiente, que objeto, que conjunto de fatos, quantos conflitos! Mas, na verdade, sinto-me como uma espécie de cientista louco, dissecando o mais extraordinário, raro e agressivo tumor que jamais viu na vida.

Intelectual e profissionalmente, é interessantíssimo; um grande desafio a definir o futuro de sua humanidade limitada e o seu próprio. Mas, sem qualquer felicidade: o paciente que definha na mesa de cirurgia — portador desse tumor — é “chegado“ da família. Então, o mal-estar é inevitável, a tristeza também. Não se trata de constrangimento, o “objeto” exige rigor. Mas, é claro, conhece-se de perto sua história, percalços, conquistas, tristezas, ilusões, alegrias e frustrações ao longo da vida; o vínculo é inegável.

O país não vive uma tese acadêmica, não vive um laboratório de testes; vive a histórica real e a seco, com todas as consequências, com toda a insegurança do futuro e temores do presente.  Não se trata de um survey, um experimento, nem um inventário de línguas mortas. De todos os ângulos e lados do problema, existem pessoas, personagens, seres humanos em sua miséria e em sua grandeza. Esperanças e mitos que se vão, amigos transtornados a favor e contra. A crise não é de ficção!

E menos ainda de fácil solução. Depende de entendimento, de reconexão mínima, da reconstrução de uma confiança básica entre os mais diversos setores e isto parece ter-se perdido. O “nós contra eles” nos amarrou neste enrosco, rompendo diálogos semeando a discórdia, libertando preconceitos de ambos os lados. A presidente Dilma tenta, agora, jogar a responsabilidade de sua ferida para a oposição, mas a pedra que estilhaçou a vidraça partiu do seu lado.

E não fazia sentido, para além da retórica oportunista do marketing eleitoral, em determinado momento, Lula foi quase unanimidade. Então, nada era tão dividido assim. Setores resistentes e sectários eram minoritários. As fendas da separação cresceram, sim, mas ao ritmo dos erros do governo; o que hoje se atribui como preconceito foi, um dia, espanto e admiração. A soberba é que o pôs tudo a perder; necessário admitir

Há exatamente um ano, escrevi que Dilma era incorrigível (clique aqui para ler); a presidente cometia desatino após desatino,  as esperanças de que pudesse consertar o que a campanha eleitoral quebrou iam-se pelo ralo. Nada mudou de lá para cá. Seu últimos pronunciamentos aceleram o desastre. Cristal trincado, no way!

Mas, é injustiça atribuir à presidente incapaz todos os males; ela tem boas companhias. O país também carrega culpa nas costas: nos últimos anos, produziu a pior safra de lideranças (?) de que se tem notícias – Eduardo Cunha, Renan Calheiros, uns tais “cabeças pretas” do PSDB, o grosso da bancada do PT, aliados, cúmplices, sádicos, todos… Um deserto de pedras, onde calangos se comem. Como a sociedade permitiu que os campos secassem?

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Despertei desta divagação diante da TV; na tela, o governador Geraldo Alckmin anunciava o fim do racionamento de água em São Paulo; como alguém pode anunciar o fim de algo que nunca admitiu, não sei explicar. Alckmin tem uma sorte tremenda em ter Dilma como biombo; lembrei das críticas que tem recebido de seu próprio partido. É outro personagem daqueles!

Se Dilma e sua trupe causam tão má impressão, a oposição não fica atrás. Troco de canal e encontro Paulinho da Força, numa propaganda do Solidariedade. Realmente, as opções são terríveis. Nada é mais desolador que essas propagandas partidárias; elas revelam que houve um dilúvio em que um Noé hipotético, a sociedade, escolheu os piores pares das piores espécies. A crise não é para estômagos sensíveis. Dilma, Alckmin, Paulinho, Eduardo Cunha…

E mesmo Lula, cujos fatos apequenam, retirando-lhe a dimensão que, um dia, “83% dos entrevistados” lhe atribuíram… É um sistema político que despenca, um oco, um vazio por detrás de paredes que pareciam sólidas; pés de barro de um Cristo que imaginou pudesse decolar para o futuro. O bom momento passou e foi péssimo conselheiro; não semeou culturas que resistissem aos inevitáveis tempos de pragas bíblicas.

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O tumor que pesquiso cresce. Agora a ameaça parece sair do corpo, ganhar as ruas. As ruas são o palco da democracia, mas é preciso respeitá-las; entender que há certa ordem no caos. Querer compartilhar espaços de esferas tão distintas é buscar enfrentamentos; inibir o adversário ou buscar por um mártir. Há desgraças que quando compartilhadas só aumentam, a irresponsabilidade é uma delas.

Cresce o tumor e os vírus oportunistas proliferam, numa grande orgia de hormônios e enzimas que explodem no sangue do paciente. Lembrei-me de uma passagem sobre Heitor Villa-Lobos: de volta dos Estados Unidos, onde foi diagnosticado de um câncer, o gênio musical foi cercado por uma jovem jornalista, foca do Jornal do Brasil, que lhe perguntou: “Maestro, o senhor está compondo?” Ao que ele respondeu: “não minha filha; eu estou decompondo”. Dizem que a passagem é real, embora pareça piada.

O país está decompondo. Urgentemente, é necessário reconhecer, identificar, investigar, e compreender seu tumor. Ele tomou conta de boa parte do corpo (político), não está apenas no coração do PT, no fígado do PSDB ou nos intestinos, onde residem uma miríade de outros partidos, como o PMDB ou a legenda de Paulinho. Requer terapia, ação regeneradora; não medicina paliativa. Mas, não pode ser por intervenção; terá que despertar seus anticorpos.

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Pasmados, petistas negam o problema como se um problema mil vezes negado deixasse de existir. Não, nem todo o PT é aquilo que se diz a seu respeito, mas os fatos gritam que uma parte do PT já não honra o PT que petistas ainda trazem no coração; um passado que parece tão distante, parte de outro tempo e outro mundo, tanto quanto as lendas de Excalibur. É inapelável crueldade, mas uma verdade negada mil vezes não se transforma em mentira; a história é implacável.

Melhor seria admitir os erros e salvar e preservar os acertos. Tudo o que se gostaria é que Lula pudesse se explicar, sem tergiversações. Pecadilhos, gulas e luxos existem; são bobagens, inventaram as penitências para purgá-los. Mas, não se trata apenas disto, é preciso ir ao cerne do tumor: o clientelismo e o patrimonialismo atávicos nacionais. E não importa se “os outros puderam e só o ‘metalúrgico’ não pode”; ninguém pode. E se o peso despenca de tão alto sobre o “metalúrgico” é porque se esperava que seu metal fosse de outra têmpera.

Ok, o bravo metalúrgico é humano. Comecemos, então, por admitir isto; desmistificá-lo, dessacralizá-lo. Começar de novo e buscar um outro fim. O imperativo categórico do presente compreende que é preciso buscar a razão, escapar das armadilhas de uma dramatização barata, de enredo confuso, de gosto duvidoso.

É preciso desacelerar esse tempo, evitar avaliações e julgamentos precipitados; deixar filigranas jurídicas para o Supremo – que, por sinal, tem a maioria escolhida pelos governos do PT. À justiça o que lhe cabe; à política, o que é seu dever: reconstruir do diálogo do sistema político, antes que se esgarce o tecido social. A anomia, a desinteligência continuada, bruta e insensível, formam o Minotauro que nos devora no interior do labirinto – já escrevi sobre isto (aqui e aqui). É difícil dormir bem, amigo. Mas, é necessário acordar.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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