Qualquer um pode ser cristianizado

Qualquer um pode ser cristianizado

Carlos Melo

09 de novembro de 2020 | 20h29

Imagem: Fábio Vieira/Fotorua/Estadão Conteúdo e Reprodução

 

Na reta final, pesquisa Ibope/TV Globo/Estadão mostra que é improvável que Bruno Covas fique de fora do segundo turno. Para quem apostava na polarização e na irrelevância do centro, sua posição confortável pode indicar a exaustão de anos de conflitos, decibéis elevados, ausência de diálogo, intolerância. Por outro lado, é verdade que incumbentes levam vantagem, pois, no controle da máquina, basta não errar muito para ultrapassar esta primeira fase.  Somente depois a disputa se torna uma espécie de referendum. Seu grande desafio estará no segundo turno.

Por enquanto, a emoção ficará por conta do segundo lugar. Celso Russomanno já vinha despencando e o apoio explícito de Jair Bolsonaro não parece suficiente para salvá-lo. Sua rejeição resiste em 41% — não sendo possível afirmar se é somente sua ou se ela está também relacionada à parceria com o presidente da República e desse com a cloroquina. Seriam os pecados apenas seus ou também do padrinho? O fato é que a popularidade nacional do coronavoucher não se reproduz nas capitais.

Guilherme Boulos já é a maior novidade dessa eleição: sua dianteira em relação a Jilmar Tatto tende a ser o fato mais surpreendente e rico em consequências: a terra tremerá na esquerda, com o PT duramente questionado se pela segunda vez seguida não for ao segundo turno. O partido será cobrado por antigos aliados e internamente passará por processo de autoflagelação. Já Márcio França renega qualquer padrinho com o sonho de ser adotado pelo “voto útil” contra Covas e Doria. Mas os 10% nesta rodada parecem ser um banho de água fria.

As pesquisas são em si fatos políticos: elas despertam setores sociais, apelam a novos cálculos na perspectiva do “voto estratégico”. E, assim, podem promover deslocamentos de boca de urna, com eleitores buscando o que acreditam ser “o mal menor” para o segundo turno. Na reta final, qualquer um pode ser cristianizado: Jilmar por Boulos e Russomanno por França.

Carlos Melo, cientista político e professor do Insper

 

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