Primeiros dias da CPI fixam evidências e revelam a fragilidade do governo

Primeiros dias da CPI fixam evidências e revelam a fragilidade do governo

Carlos Melo

05 de maio de 2021 | 13h25

 

A batalha de campo da CPI se explicita nas sessões abertas e depoimentos públicos. Quando não há coordenação ou um dos lados da disputa é claramente incapaz, os conchavos são postos em xeque e o imprevisível governa. Bate-bocas são apenas expressão de desorientação. Os primeiros dias da CPI da Covid revelam que a base bolsonarista é inexperiente e inepta para traçar estratégia e assumir o controle da situação.

Primeiro sinal disso se deu com a comunicação de que Eduardo Pazuello não se apresentaria à comissão, por conta de suposto contato com auxiliares infectados. Pazuello nunca foi exatamente cuidadoso, por isso o fato faz supor o medo – talvez o pânico – que orienta suas ações. Além da ausência de estratégia governista, pois é claro que, quando o ex-ministro finalmente for ouvido, a CPI terá ainda mais elementos para questioná-lo.

Não fica por aí: os governistas da CPI repetem argumentos surrados, do próprio governo, insistem em atribuir responsabilidades ao ex-ministro Mandetta, ao STF, aos governadores. Há também gafes e trapalhadas que desmoralizam: a revelação de que uma pergunta do senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi dirigida por Fábio Faria, ministro das Comunicações, sinaliza o esforço do Executivo em, ao invés de orientar seus senadores, tê-los como marionetes.

O fato é que a “tropa de choque” de Bolsonaro não causa choque. Irrita e procrastina, mas sua ação sequer chega a ser defensiva. É apenas inócua.

Já os depoimentos iniciais vão fixando evidências e consolidando interpretações. O de Luiz Henrique Mandetta indicou que o presidente e seus conselheiros apostaram num cenário perigoso: a imunidade de rebanho. Já com Nelson Teich se conclui ter havido pressão para a ampliação do uso da cloroquina e falta de autonomia necessária para conduzir a política de Saúde durante a pandemia.

Em paralelo, Jair Bolsonaro tenta se superar em ameaças para desviar o foco; apela à sua base radical. Mas os primeiros dias da CPI fixam evidências e demonstram fragilidades dificilmente superáveis.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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