Previsível, Bolsonaro é lacuna brasileira no cenário internacional

Carlos Melo

22 de setembro de 2020 | 11h13

 

Na inconstância e no arrebatamento de seu líder, o governo Bolsonaro é previsível e banal. Foge ao modelo de instituições eficientes, capazes de garantir segurança e perspectivas de longo prazo a cidadãos e negócios; não coordena, não conduz, não se antecipa a problemas que, antes, ele os cria. Mas, por isso mesmo, o esdrúxulo e o voluntarismo são regras consolidadas nas quais pode-se apostar, sem risco.

Foi que se viu no discurso brasileiro, na Abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). Novamente, o presidente foi previsível: lavou as mãos em relação à pandemia, culpando a única política possível, neste momento, de combate ao vírus, o isolamento social. Vangloriou-se daquilo que não fez, desprezou a ciência — a hidroxicloroquina, mais uma vez. Na questão ambiental, vitimizou-se; grande injustiçado mundial. Sua “política de tolerância zero ao crime ambiental”, admitamos, foi o ponto mais criativo (e irônico) do discurso.

Voltou a acusar a Venezuela, alvo preferencial de “inimigo externo” – todo regime autoritário precisa de um.  Em sua cruzada medieval, denunciou suposta “cristofobia”. Adulou Donald Trump, sapateando sobre as brasas do multilateralismo. Fez de tudo, mas, ao final, restou lacuna, vazio de ideias próprias; o de sempre. Já ocorrera em 2019, no espetáculo de constrangimento que Bolsonaro e seus apoiadores percebem como afirmação. É o triunfo do patético sobre a civilização, do qual se ufanam.

A raiz disso é Donald Trump – não os Estados Unidos –, o mito do mito! Caso para a psiquiatria, Trump exerce enorme fascínio sobre o brasileiro, que o ama e o saúda em continência, com gestos e opiniões clonadas.  Bolsonaro sabe que se Trump for derrotado por Joe Biden, em novembro, seu governo estará absolutamente isolado. Por isso, incrementa doses de maior submissão, num papel que nem Dom Pedro aceitou em relação ao pai, Dom João, nos tempos de Reino Unido. Faz isso exatamente a troco do quê?

Possivelmente, nem Bolsonaro nem seu chanceler saibam ao certo, pois a reciprocidade de Trump tem sido humilhante para o Brasil. É o modo de estarem no mundo, movidos pela crença em ideólogos de opereta. Talvez porque, em 2016 e 2018, deu resultado; talvez, por falta de livros na idade certa – ou apego a conhecimento nenhum. Servidão voluntária?

As “bases” aprovam. Mas, agarrar-se a Trump não é solução, mesmo em caso de vitória do Republicano. No Concerto das Nações, o atrelamento de um país a outro o transforma num garoto de recados, sem importância. Mesmo assim, nada disso é estranho: no caleidoscópio sem lógica do universo bolsonariano, vertigem dá prazer.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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