Péssimas condições de contorno

Péssimas condições de contorno

Carlos Melo

27 de abril de 2021 | 16h06

Foto: Dida Sampaio/Estadão

CPI é território em disputa: a oposição quer enfraquecer e, se puder, derrubar o governo; governistas agem na contenção de desgastes do Executivo e dos avanços da oposição. As condições iniciais tampouco independem de circunstâncias mais gerais, localizadas no governo e no país. Ao final, serão as condições de contorno — a insatisfação popular e a fragilidade política – que definirão o jogo.

Sempre houve algum abuso na utilização de CPIs. Oposições sem projeto e oportunismo fisiológico as usaram descoladas do contexto mais amplo. Normalmente, “deu em nada”, à parte do desperdício de energia. Mas, o oposto também se deu: a “CPI do PC Farias” derrubou Fernando Collor; a “CPI dos Correios” resultou no “Processo do Mensalão”, no STF, e destroçou promissoras lideranças do PT. Nos dois casos, a insatisfação geral se dava para além do objeto da CPI.

Hoje, a população está recolhida ao isolamento social da pandemia. E, por enquanto, não há mobilização de rua, elemento que potencializa as CPIs. Mas, à parte disso, as condições de contorno são notoriamente insatisfatórias.

Em 60 dias, o País chegará a 500 mil mortes, infelizmente. A situação econômica é deplorável: desemprego e fome tomam manchetes e o cotidiano das famílias. A base governista é arenosa, como se viu no conflito do Orçamento 2021. O governo está internamente fracionado, ministros sob fogo cerrado. Velhos aliados estão ressentidos e a imagem internacional é péssima.

O presidente e seu séquito são máquinas de disparates e confusão. Campeões de tiros nos pés, se desviam a atenção, também agravam a situação. A inabilidade política e a incapacidade de articulação atingem patamares inéditos. Não faltam condições de contorno desfavoráveis para que a CPI prospere.

Faltam as ruas. Mas, quanto mais rápido avançar a vacinação, maior a possibilidade de grandes mobilizações. Arrastar a CPI e estender seus ritos será mais um erro. Com quatro senadores e tudo o que ocorre no país, será difícil dominar o território em disputa.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

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