Pastore não seria outro ‘Posto Ipiranga’; já Moro terá que provar não ser outro Bolsonaro

Pastore não seria outro ‘Posto Ipiranga’; já Moro terá que provar não ser outro Bolsonaro

Carlos Melo

17 de novembro de 2021 | 17h25

Foto: Gabriela Biló/EstadãoSérgio

 

Moro experimentará a insegurança das vidraças, pois será avaliado com rigor das pedras. De adversários, experimentará o ressentimento; de aliados, a desconfiança. Além da frieza que dispensou a acusados e réus. Não cabe pedir comiseração ou reclamar da dureza do jogo. Políticos se submetem a processos e julgamentos cuja maioria das pessoas desconhece a severidade. Se resolveu sair à chuva, inevitável se molhar.

O ex-juiz cuspiu para cima ao garantir que jamais seria político. Soube-se, depois, que já era. Pior que voltar atrás é a sensação de embromação. Terá que explicar.  O argumento de “ter acreditado poder contribuir no combate à corrupção” será questionado. Até as samambaias de qualquer gabinete em Brasília sabiam quem era Jair Bolsonaro. Aos políticos não se permite o luxo da ingenuidade.

Não será só isso. Quando desemprego, carestia e fome entram pela porta da conjuntura, assumem a centralidade e deslocam o tema corrupção para o fundo do quintal, na periferia do debate. Será erro grosseiro se o ex-juiz enxergar 2022 com os mesmos olhos com que viu e agiu em 2018. “Nem mensalão, nem rachadinha”, diz. Ok. Mas, afinal, o que sugere? Eis a maldição das “terceiras vias” — o Brasil as tem no plural: querer se afirmar apenas e na simples negação.

Talvez, por isso Moro dê sinais de preocupação com seu “nome da economia”. O respeitado Affonso Celso Pastore, por exemplo, não é menino, não busca reconhecimento, tampouco holofotes. Na hipótese de vir a contribuir – com qualquer campanha –, exigirá mais que promessas: qual visão de mundo e ideia da natureza dos problemas tem o candidato?  Já se sabe que mesmo bonecos de ventríloquo ganham autonomia quando assumem o poder; fundamental saber o que pensam.

Dificilmente, eleitores cometem o mesmo erro que os escaldou. Na economia, qualquer postulante à Presidência terá que demonstrar mais que promessas de uma agenda ampla e, em muitos sentidos, ultrapassada por doenças crônicas – econômicas e sociais — catalisadas durante a pandemia.

O responsável formal pela economia carecerá de garantias mais amplas que sorrisos de palanque e frases jocosas. Não bastará negar ser “mais um posto Ipiranga”; será necessário revelar outro tipo de presidente. A má política tem se mostrado o mais cruel e atroz custo para o Brasil. Um desastre. Contudo, 2018 ensinou que a antipolítica pode ser pior. O País precisa de outra política.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

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