Partidos de dono

Partidos de dono

Carlos Melo

08 de março de 2021 | 15h17

Foto: Hélvio Romero/Estadão

 

Quase sempre chocante e constrangedora, a incontinência verbal de Jair Bolsonaro é também um testemunho sociológico a respeito da realidade avassaladora do País. Por vias tortas, uma aula a propósito de uma parte do Brasil: não o que deveria ser, mas do que efetivamente é. A sinceridade de um “simples” ou a desfaçatez de um tempo em que já não há pudor e tudo parece normal?

O fato é que muitos partidos no Brasil têm dono. Que, embora não admitam, controlam legendas conforme seus interesses. Não há relação cívica ou atividade política; apenas o mandonismo de quem conquistou um cartório e o transformou num bem patrimonial, cujos descendentes o herdarão. O capital burocrático pertencente a um oligarca e à sua família: “partidos de dono”. Simples assim.

Bolsonaro não inova. Com representação no Congresso Nacional, há um magote dessas legendas. Não possuem bases sociais, bandeiras políticas, postulados ideológicos; não são conduzidas por lideranças, nem mesmo por caudilhos; mas tão somente por proprietários que podem arrendar, trocar, emprestar ou vende-las com seus recursos públicos — fundos partidário e eleitoral, horário em Rádio e TV; assentos nos Legislativos do país.

Claro, nem todos são assim, alguns possuem bases sociais; vida partidária, disputas internas. Caciques, sim, mas que sobem ou caem, no controle da máquina, ao sabor de disputas políticas. Mas, esses não interessam. O sonho dos mais sinceros é mesmo ser “proprietário”; o patrão de si mesmo. O presidente, a seu modo, apenas expressou o que se passa no coração do Brasil profundo, pré-institucional; oligárquico.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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