Página virada e batatas quentes

Trata do resultados das eleições, do fim de um ciclo político e da inexistência de um novo.

Carlos Melo

01 de novembro de 2016 | 12h44

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima pra socorrer
(Rosa dos Ventos, Chico Buarque)

Cedo para dizer se o PT, como projeto futuro revisto e modificado, terá ou não sucesso; continuidade, pelo menos. Certo parece que a legenda, como a conhecemos hoje, se foi na confluência das enxurradas da crise econômica e dos escândalos de corrupção. Ainda que muitas de suas práticas resistam num sistema político mais amplo e apodrecido — e que algumas de suas políticas públicas tenham se consolidado no ambiente social brasileiro –, é inevitável: o PT amargará o ostracismo por muito tempo. E, neste momento, é página virada no way.

Página virada porque não representa mais o que diz representar e quem, um dia, efetivamente, representou. A sociedade disse que não lhe quer. Não adianta remoer sentimentos, lamber feridas; buscar culpados na mídia, na tal classe média, nos brancos, na direita; na esquerda, até. De cabo a rabo, a desgraça da rejeição política deitou os olhos sobre Lula, Dilma e os seus, negligenciando supostos méritos e potencializando os notórios defeitos. Companheiro, a política pune; a política é cruel!

No way porque não se impõe mais como instrumento de oposição efetiva, eficaz, concreta e propositiva. Lamberá feridas por muito tempo até que torne se colocar novamente no debate como alternativa, como projeto de país, de sociedade; sequer de poder – sua fixação nos últimos anos de governo. A simbólica estrelinha vermelha, da fúria moralista contra a corrupção e da utopia socialista – o PT dos sonhos de muita gente que dizia “a esperança venceu o medo“ –, esse PT, como PT, não mais existe.

Existe, agora, somente como um quadro, tal a Itabira de Drummond, pendurado na parede – e doendo em muita gente. Existe um sentimento difuso de que o mundo poderia ser outro e que os instrumentos para transformá-lo – como o PT anunciou que seria – se esgotaram seja no esquerdismo ingênuo desses bolivarianismos inconsequentes, seja na corrupção que, com a desculpa de financiar o projeto, enriquece os espertos, ilude os tolos e aniquila as utopias. Existe como frustração.

As urnas deste 30 de outubro encerraram, portanto, um ciclo; o ciclo do PT como protagonista da política brasileira. Distante, agora, da esperança e sem mais poder vender sua promessa, em percentagem de eleitores governados, o partido é somente o décimo segundo do país — atrás do PPS. Muitos de seus quadros lhe deixaram — por crítica honesta ou oportunismo descarado – e muitos ainda hão de abandoná-lo. A legenda voltou a patamares anteriores ao ano 2000.

Trata-se hoje de um nanico que, um dia, foi grande. De um importante jogador que perdeu, ao final, a relevância. Uma espécie de Guarani ou de Portuguesa de Desportos da política brasileira — sem o charme da Lusa ou do Bugre; sem nenhum “brinco de princesa”. Os títulos de ontem ficam, hoje, num museu fechado à visitação.

Talvez seja este o maior saldo eleitoral que Michel Temer pode colher desta jornada: retirar o petismo de seus calcanhares; olhar as ruas e saber que eventuais manifestações são localizadas; não possuem o lastro do povo, o real abrigo na sociedade mais ampla para além dos grupos de interesses corporativos. Nesse aspecto, Temer, a despeito de seus outros pesadelos, pode dormir tranquilo.

Mas que também não se engane: o fim do ciclo do PT tampouco inaugura um novo. Ilusão encontrar nas urnas sinais que apontem a algo ou alguém como favorito para 2018 e anos adiante. Os tucanos são um todo controverso, fragmentado, em pé de guerra; o PMDB, um mosaico mutante, volátil e incerto; comprometido até os dentes. As vitórias eleitorais de outubro de 2016 apontam muito mais para a fragmentação e para emergência de personalidades e aventureiros do que para o fortalecimento partidário ou para o reordenamento da política. Todos cuidado, ai, é pouco.

No mais a ponderar, a desorientação que o fim de ciclo trará a muita gente: para os petistas renitentes, obviamente; seus ecos não mais ressoam. Mas também os antagonistas figadais do PT, que fizeram fama, carreira e prestígio no combate ao petismo ficarão, muito cedo, sem tribuna: lutar amanhã a batalha que se venceu ontem, não faz qualquer sentido; o trem passou; a noite passou e eles também se perguntarão a si mesmos: “e agora, José?“

Por um tempo, ainda se poderá expiar todas as culpas ao PT – culpas que efetivamente carrega –, mas muito cedo virá o desafio de dar respostas concretas a problemas concretos. Enfrentar a Lava Jato, resolver a economia – ou seria o contrário? –; os discursos de mais nada valerão.

Haverá um país a dar conta e logo se verá que, entre os atuais aliados, a maioria carrega todos os vícios, todas as mazelas e todas as taras que fizeram a desgraça do PT. Sim, restará aos atuais vencedores alardear a vitória eleitoral e política; supervalorizar seu papel na batalha. Mas se ”ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor” restarão apenas “as batatas”. Batatas quentes, a propósito.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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