A inconsistência temporal de uma política feita de espasmos

A inconsistência temporal de uma política feita de espasmos

Carlos Melo

14 de julho de 2021 | 11h18

Toffoli, Maia, Bolsonaro e Alcolumbre; chefes dos Poderes se encontraram no Palácio do Planalto em 28/05/2019 Foto: Marcos Corrêa/PR

A relação e a harmonia entre os três Poderes do Brasil, nesta quadra histórica, é “uma contração espasmódica (…) seguida de movimento de distensão e relaxamento”, com pouco ar. Esta também é a definição do Dicionário Houaiss para “soluço”. A paz institucional desses dias se assemelha a esse processo físico de uma anatomia que já apresenta desgastes e deriva numa série de problemas. A ironia da reunião que não houve, entre os três poderes, é que ela possa ser metaforizada pelo surto de soluços que, infelizmente, atingiu o presidente da República, Jair Bolsonaro.

Não é a primeira vez que se aventa uma reunião de Poderes para pactuar um grande acordo, uma agenda ou uma simples trégua, com compromissos de não agressão. Encontros desse tipo têm resultado em fotografias com os chefes dos três Poderes, risos pálidos com o tempo e em declarações de intenção, em convescotes nos palácios. Imagens rapidamente apagadas pela intolerância e irascibilidade da personalidade central e exaltada do presidente da República.

Jair Bolsonaro não sofre apenas de crises de soluços — desarranjo pelo qual merece estimas de recuperação. Seu maior problema é mesmo a inconsistência temporal de uma política feita de espasmos. O que o presidente diz e com que se compromete, após reveses e apertos causados por ele mesmo, não é sustentável no tempo e no âmbito do radicalismo da base que lidera e emula. Bolsonaro tornou-se refém daquilo que ele mesmo desejou e estimulou: sua base radical, míope e negacionista. Voltar-se a acordos mais amplos, dirigir-se ao conjunto da nação, na sua imaginação e na pressão que de fato sofre, equivaleria à capitulação. E, mais à frente, a isolamento ainda maior.

Por isso, seu compromisso com esses pactos deixou de ser crível, confiável. São apenas sinais momentâneos e parciais de uma disposição que, na verdade, o presidente não possui. Por que essa calmaria de agora? O próprio presidente o disse, nos cercadinhos ao pé do Palácio: não pode contar com “gente importante” ao seu lado. O PIB, o Congresso, o STF, as ruas. Agarrado ao guidom de uma motocicleta, é um presidente “sem destino”, movido a soluços. Que essa doença possa ser superada.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

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