Os quatro trabalhos de Dilma (ou de Lula)

O que a presidente deve ou deveria fazer, mas, infelizmente, não fará -- até porque não fez.

Carlos Melo

16 de março de 2016 | 10h45

Jornalistas daqui e de fora buscam entender a crise; na ansiedade geral, perguntam quais seriam as saídas. Em relação à Dilma Rousseff perguntam, candidamente, o que “deve” fazer para que se livre do espectro do impeachment que tem rondado seu Palácio. Ou mesmo o que poderia fazer Lula, na eventualidade de assumir, de fato, o governo Dilma – depois, é claro, de encaminhar suas questões mais aflitivas e pessoais.

Difícil responder. Naturalmente, não sei. Trata-se daquelas perguntas cuja resposta vale o tal “milhão de dólares” ou mais, a varinha de Dumbledore. Quem haveria de responder… Mas, é da profissão: jornalistas insistem em especulações e possibilidades; “qual a saída?”, seus leitores perguntam. De positivo nisso, é que fazem pensar; e pensar está além do simples criticar, torcer, sorrir e chorar. Numa crise como esta, é fundamental pensar — pelo menos uma vez por dia.

De modo que segue aqui um roteiro que podemos chamar de “Os Quatro Trabalhos de Dilma” (ou de Lula) – a alusão a Hércules, o deus grego, é clara, mas talvez ele não trocasse os seus “doze trabalhos” por estes quatro. Vamos lá, são eles:

1) Em primeiro lugar, recompor a guarda, rearticular a tropa. Levar às ruas uma multidão igual ou maior que a de 13 de março, que ocupou as cidades país afora. Provar, de fato, como dizem os petistas, que quem estava nas ruas naquele domingo não era a maioria, não era parcela significativa da sociedade. Demonstrar que a massa, de verdade, está ao lado do PT e do governo, estes sim os portadores do sentimento da nação. Não vale mobilizar apenas os organizados em torno dos movimentos sociais tradicionais ou de interesses corporativos, misturá-los ao final da tarde de um dia da semana à multidão transeunte e alegar que foi “massa;” precisa ser mais autêntico, como o PT já foi no passado — os “desorganizados” também fazem parte da sociedade e o governo precisa mostrar que estão ao seu lado;

2) Em segundo lugar: estancar urgentemente a Operação Lava Jato; o que implica tanto em esclarecer as denúncias que estão sobre a mesa, quanto “fechar o duto” de escândalos em que se transformou esta e outras operações; garantir que novas revelações não mais surgirão como raios inesperados no céu da “tempestade perfeita”. Não vale apenas maldizer o juiz, a mídia e ex-aliados, afirmando que não se pune do outro lado. Isto pode ser um indicador importante de que as operações precisam evoluir – como, com efeito, precisam –, mas nunca será um elemento de absolvição ou inocência de quem quer que seja;

3) Depois, retomar imediatamente o controle da base e a maioria do Congresso Nacional; evitar defecções de ratos que já abandonam o navio e recompor a maioria, não apenas com a distribuição de recursos do orçamento – que já não há. Mas, implantando uma agenda de reformas – a Política, antes de tudo –, ao mesmo tempo, anulando o oportunismo do PMDB e a irascibilidade da oposição como elementos de desestabilização. Também desejável, mas não condição sine qua non, estabelecer um melhor clima, retomar o diálogo nacional, recompor a União — como, aliás, somente nos últimos dias, infelizmente, a presidente vem solicitando a todos;

4) Por fim, a retomada incontinente do desenvolvimento econômico; alterando expectativas negativas, induzindo investimentos, levando a limites aceitáveis os números do déficit público, do desemprego e da inflação. Numa expressão: retomar a confiança e a esperança. E, assim, recolocar na agenda o desenvolvimento e a inclusão social, elevando os fatores de bem-estar da população em geral. Este é o mais urgente desafio a cumprir, pois atenuaria a falta ou a lentidão dos demais “trabalhos”; embora, sem os demais, este fique, com o perdão do pleonasmo, “mais impossível” de realizar.

Ok, não precisa ser perfeito – nunca é bom nem produtivo pensar apenas em termos “ideais”. Mas, importa buscar algo próximo disto, que resvale nisto; algo na direção certa e não nos caminhos tortos em que se embrenha o governo. Um sinal já seria grande novidade, uma mão na roda para escapar do impeachment e também para retirar o país do labirinto.

Mas, tudo precisaria ser providenciado para já – para ontem; tudo ao mesmo tempo e agora –, as quatro medidas, os “quatro trabalhos”, concomitantemente. Não um, nem dois, nem três – os quatro pés — sem um deles, a mesa fica manca e cai. São variáveis dependentes, digamos assim. E como não há mais tempo a gastar, não há tergiversações com que se ocupar; abalos, com que paralisar; nem desinteligência com que se perder. Enfim, o necessário comando, liderança, inteligência, autoridade e confiança. Só aquilo que se espera de um governo que governe e não se deixe governar.

De modo que, aí sim, se afastará de vez o fantasma do impeachment e se poderá voltar a um patamar razoável de convivência até o final do mandato de Dilma, pelo menos. Um rol de ações para pacificar o país e apontar para o futuro.

Ora, mas nada disso é ou parece ser factível! Embora a sugestão seja sincera, é mesmo uma sacanagem propor esse conjunto de ações, num momento como este. Admito. No ponto em que chegamos, nem deus, nem mesmo Lula realizariam estes “quatro trabalhos”. Dadas as condições em que estamos, Hércules diria: “tô fora!” Pois, nenhuma — nenhuma — dessas variáveis está sob controle de Dilma ou se mostra possível de realizar no ritmo que a crise agora impõe; no ambiente de dramaticidade e vertigem a que o país chegou. Suas perspectivas de vingar, ora, ora, ora… são mínimas; perto de zero.

Até porque, se Dilma fosse capaz de realizar esses “quatro trabalhos”, não seria necessário ter que fazê-lo; a situação não teria chegado ao ponto em que chegou. Eu não estaria escrevendo este texto e você não o leria. Estaríamos cuidando de questões mais agradáveis e esta seria uma não questão.

Resta que a dura realidade é a crise que não cessa, a saída que não se apresenta, o labirinto que não se abre. E Dilma que não se sustenta. O conflito continuará, com perspectiva de dias ainda piores. Seja durante o tempo — hoje indeterminado — do mandato da presidente, seja até mesmo no dia seguinte ao seu término — amanhã ou daqui há dois anos e tanto; com Michel Temer, com nova eleição, com sabe-se lá o quê.

Mas, imagino que seja isso; dei minha contribuição. “Saber o que fazer, até que sei”, é o que respondo aos jornalistas, “ainda que o que deve ser feito seja impossível de fazer (com Lula ou sem Lula no ministério)”. Fora disso, é acordar para a realidade; a dura realidade nossa, que o cada dia nos dá no hoje em que vivemos.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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