O usufrutuário

Eduardo Cunha não é excrescência de nada; é até mesmo natural que exista. Publicado originalmente pelo Caderno "Aliás,", de 15/11/2015.

Carlos Melo

16 Novembro 2015 | 07h59

Usufrutuário das mazelas do sistema, da pequenez dos partidos, da crise de representação, da ausência de lideranças e do bom senso. Eduardo Cunha ganhou expressão pelo deserto de Política que nos rodeia. Não se lhe reconhece espírito superior, clareza de ideias; qualidade e ampla positividade de projetos. Isto ele não tem. Cresceu à sombra, favorecido pela negligência e animado pelo oportunismo alheios. Usufrutuário, isso sim, do vácuo que se produziu ao longo da década, é flor que nasce do estio das chuvas, no meio do volume morto.

Nunca se ouviu dele opinião para além do interesse dos grupos a que pertence: deputados, pentecostais, negocistas. Capitão do atraso nos costumes, foi ao front alçado por pautas e ressentimentos internos: cargos, liberações, reacionarismo. Integra retrocesso ao fisiologismo. Despachante de lobbies, multiplicador de recursos eleitorais; não faz colegas, planta devedores no Congresso; a base da fidelidade que desfruta. Gigante só entre anões, seu mérito foi percorrer ligeiro a vasta planície de inépcia e estultice do dilmismo, que se abria à sua frente.

Fulanizar em Cunha todos os males do sistema é erro e má-fé. O presidente da Câmara não é causa de quase nada; início ou fonte do que quer que seja. É, antes, efeito; sintoma, produto de quase tudo o que se desenvolveu ao abandono, no país. Crucificá-lo sozinho, mais que injusto, é vigarice do roto que troça do rasgado. Há mais suspeitos a quem apontar o dedo.

O sistema se exaure não é de ontem; degenera-se há anos. A sociedade abandonou a política, desprestigiando-a, negando seus melhores; relegou a atividade ao cantinho das coisas insignificantes. À política, a elite – não apenas econômica – virou as costas; julgou ser os restos da economia. Ao cravar política como “coisa de malandros”, deixou “reserva de mercado” à pilantragem; isolou os bons. Comovida, a malandragem agradeceu. A seleção adversa foi inevitável.

Também o presidencialismo de coalisão assumiu sua dinâmica: o método até ontem era um sucesso, do balacabaco. Olhava-se, como sempre, resultados imediatos, não as deformações que faziam o pau nascer torto. Ao presidencialismo imperial, repleto de cargos e recursos, bastavam Medidas Provisórias e um Congresso submisso e cevado na “partilha do governo”. Gabinetes, emendas e esquemas falavam mais que argumentos.

Exaltou-se o pragmatismo, objetivo e despido de valores. A coalisão criou terminologias próprias: “porteira fechada”, “operadores”, “facilitadores”, por fim, “delatores”. A “revolução brasileira” que Lula imaginava fazer era, assim, calcada nessa conciliação: chantagem de um lado, fisiologismo do outro; anemia de cidadania e ideologias. Ideais, o fisiologismo sepultou; por desnecessário, o combativo tribuno foi à breca – razão e oratória desapareceram; a liderança morreu. Na exaltação do marketing e na atrofia do Legislativo, expandiu-se o Executivo acomodado e balofo.

Alguma graxa — admite-se –, de quando em vez, é necessária para não ranger as engrenagens. Mas, graxa alguma substitui a Política. O hábito gerou o vício, transbordou em excesso – já não se sabe outra forma de convencer. Solidificada, a gordura emperrou o mecanismo. A exuberância irracional, os tempos de nosso crescimento fugaz, permitiu alimentar o rebanho com opulência, despertando, paradoxalmente, mais fome e a voracidade. A sociedade e o governo foram igualmente cumplices. Mas não só.

A oposição tucana e das ruas foi um show à parte. Paulinhos da Força e que tais são ervas que medraram da mesma tundra; congêneres, não causam espanto. Mas, do PSDB e das ruas, tão exigentes e ilustrados, esperava-se mais rigor. A inexperiência, a ansiedade e esperteza dos “cabeças pretas”— os jovens oposicionistas – fez a verdade se revelar: antes da moral, mas pretensamente em nome da moral, o alvo era o impeachment ou a impugnação de Dilma que levasse à nova eleição. Agarraram-se a Cunha sem considerar que o próprio instrumento depunha contra a ação. Ética relativa? Barbaridade! Ninguém escapou da degenerescência.

O abraço em Eduardo Cunha não foi, naturalmente, inocência nem desinformação; foi imprudência ou oportunismo que lhe deram alento; tanto quanto o afastamento de hoje é arrependimento ou traição. Melhor admitir rapidamente a estratégia errática, a história julga: “a política adora a traição, mas detesta o traidor”. A aposta na aventura de Cunha iludiu e comeu vários tolos, fez Aécio perder densidade política. A oposição foi jantada, o governo será servido, novamente, no café-da-manhã; Eduardo Cunha não escapa de virar mingau. Saturno devora seus filhos.

Há personagens que não se deve ter como inimigos; outros, que não se pode ter como amigos. PT e PSDB atestam hoje que em Eduardo Cunha se encerram essas duas naturezas. Mas, não se pode dizer que seja raro, único, nem que tenha nascido por combustão espontânea. Foi encubado numa câmara de decadência, displicência social e desacertos políticos. Infelizmente, o usufrutuário está longe de ser uma excrescência.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.