O nome da crise não é Aloizio Mercadante

A Aloízio Mercadante tem se atribuído a origem de todos os males do governo. É injusto. O ministro pode estar no olho do furação, mas não é ele o centro da crise .

Carlos Melo

24 de março de 2015 | 16h25

Boi-de-piranha: a expressão é conhecida. Para salvar a boiada que atravessa o rio, dá-se às piranhas um boi em sacrifício; vorazes elas se jogam alucinadas às carnes desprotegidas do animal, deixando que incólume  a Comitiva siga  em frente. Em benefício de todos, um foi o escolhido. Um boi entre tantos. É certo que esse boi não era santo.

O boi-de-piranha do momento atende pelo nome de Aloízio Mercadante, que também, é certo, não é santo. O ministro-chefe da Casa Civil tornou-se o centro das críticas ao governo, o anti-herói apontado como o responsável por todos ou quase todos os erros de seu grupo; sua influência – negativa – sobre a presidente da República seria a origem do desastre e do caos que demarcam este mandato, que é verdade, vêm de longe, de escolhas de anos quando Mercadante não tinha influência alguma para se notabilizar tanto.

Antes fosse simples assim: procurar o incômodo e retirar um único espinho do pé, aliviando todo o corpo que sofre. Nada, no entanto, é mais enganoso. Mercadante não tem toda essa expressão política e pessoal que lhe atribuem, embora, é possível, até goste de sua fama. Senador por São Paulo, líder de sua bancada, não conseguiu conduzi-la ao enfrentamento com José Sarney —  então em desgraça, na presidência de mais um escândalo do Senado. Foi quando bufou, bufou, bufou… Ameaçou e, por fim, renunciou à renúncia irrevogável que prometera e anunciara na véspera. Ficou batendo palmas, sozinho.

Candidato ao governo do Estado, primeiro atrapalhou-se com aloprados; para depois ser derrotado duas vezes, sem apelação. Mesmo no PT não conseguiu se consolidar como uma liderança que a turma segue; é, antes, bastante controverso. Faltou-lhe sempre o protagonismo necessário;  Lula nunca lhe permitiu chegar a termo. Na verdade, perdeu o brilho de estrela que um dia, sim, teve no PT e na CUT. Outros tempos, de outro PT, outro Mercadante.

Sem mandato, foi feito ministro da Ciência e Tecnologia não por pressão de alguém a não ser por si mesmo e por certa dívida por uma candidatura majoritária de poucas esperanças. Foi ao governo, na verdade, mais por consolação. E, no ministério, cresceu; aproximou-se da presidente que, aos poucos, o resgatou do limbo – pelas mãos não do Partido, nem da sociedade, mas pelas graças de Dilma. Com a saída de Fernando Haddad, a presidente deu-lhe orçamento e visibilidade, na Educação. Parece terem-se afeiçoado um pelo outro, pois são personalidades muito parecidas.

Presidente isolada, cismada com Lula e com o PT, Dilma encontrou em Mercadante um personagem que, em direção contrária, tinha contra si a cisma de Lula e do PT. Personagens solitários, tiveram uma aproximação de reflexos, como nos espelhos: encurtando a distância, mas ao mesmo tempo expandindo o interior de ambos. A desconfiança de um e o ressentimento de outro foram, por assim dizer, as afinidades eletivas que os uniu numa aproximação de complementos. Dilma encontrou no ministro a quem pudesse dar ouvidos, pois aquela voz parecia, e muito, com a sua própria voz; o ministro teve na presidente quem o ouvisse. Transformou-se num conselheiro dos conselhos que se quer ouvir.

As circunstâncias amarraram com laços bem firmes uma relação de fidelidade. E hoje Dilma reluta em “rifar” o companheiro que mais que auxílio tem lhe dado apoio. Sabe que o ministro não é o responsável por todos seus males. Sabe, intimamente, que, no mínimo, tem que compartilhar as cargas e as culpas com ele. Pois, contudo, contudo, contudo… não se deve perder de vista que a força do ministro deriva da presidente; a luz própria de Mercadante não é de alta voltagem e acende nas baterias de Dilma. De forma que os pecados do ministro não são apenas seus: no limite, a responsável pelos erros cometidos em profusão e atribuídos a Mercadante chama-se Dilma Rousseff. Esta crise é, sobretudo, sua. E atende por seu nome.

A versão de que o ministro teria “sequestrado o governo” — como,  se  diz, teria afirmado o ex-presidente Lula — não é para ser levada a sério. Diversionista,  serve para afastar o foco dos reais problema e questão: as escolhas são feitas pela presidente, no exercício de suas intransferíveis e irrenunciáveis atribuições e responsabilidades. Imaginem Lula, FHC, Collor, Sarney, Tancredo ou Getúlio induzidos, por um único auxiliar, a fazer tantas sandices. Seria mesmo muita ingenuidade – ou má fé — acreditar que Dilma se deixaria influenciar por quem quer que seja por algo com que não concordasse intimamente; como se fosse uma adolescente desprotegida, uma donzela em perigo na torre em chamas. A história e o currículo de Dilma não sancionam essa tese.  É mais dura na queda do pretendem fazer crer os que buscam retirá-la do foco e do fogo dos conflitos, jogando Mercadante aos tigres, poupando-a por exclusão.

Como toda a crise o é em alguma medida, a crise presente é também crise de personalidades: atores de cuja psicologia deriva tensões e desacertos que, com outra têmpera, poderiam ser evitados. A personalidade do governo é a personalidade de Dilma Rousseff, apenas adornada e incentivada por Mercadante e tantos outros que a estimulam por adulação ou por sincera concordância, por enxergarem a realidade pelas mesmas lentes que a presidente. Reduzir tudo ao ministro-chefe da Casa Civil não é apenas um erro de avaliação. É uma artimanha.

Afastar o ministro da coordenação política ou devolvê-lo aos limites da Educação, não basta. Ele terá proeminência enquanto Dilma escutar apenas o que quer ouvir. E Mercadante, por temperamento, não se omitirá em dizer. Demitir um auxiliar fiel será tão doloroso para Dilma quanto pode ser necessário e inevitável, como o preço a pagar pela travessia do rio da presente crise: ver o boi devorado por piranhas também dói. Mas, as crises estão ai e rios-de-piranha se sucedem; um dia, os bois acabam.

Carlos Melo, cientista político.

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