O maior desafio das manifestações é serem amplas

Carlos Melo

19 de junho de 2021 | 18h20

Foto: Wilton Junior/Estadão

 

No dia em que o Brasil ultrapassou o meio milhão de mortes pela Covid-19, mais uma vez suas ruas foram intensamente ocupadas pela política. Num momento especialmente delicado, milhares se aglomeraram e manifestaram críticas. Desta vez, foram pessoas em oposição ao governo. Houve cautela no uso de máscaras, mas não se conteve a indignação. Antes de manifestação de oposição, foi tentativa de expressar o profundo luto – cívico e pessoal — e sua dor. Mas também modo de reagir às afrontas do presidente da República.

Paradoxalmente, é o próprio Jair Bolsonaro quem desperta as ruas. Com seu negacionismo e estilo desagregador, estimula a divisão e o inevitável protesto.

No dia anterior, havia subido, mais uma vez, ao palanque. Está em campanha: com transmissão da TV Brasil, exibiu camiseta com alusão à eleição de 2022. Na quinta-feira, denunciou as urnas que o elegeram, em 2018, modo de antecipadamente contestar as do próximo ano. Uma semana antes, promoveu outro passeio eleitoral, em São Paulo. Contesta a vacina e age como se não houvesse pandemia e meio milhão de vidas não tivessem se perdido. Comporta-se indiferente aos rigores do cargo.

São óbvios gestos de quem procura instigar reações e torce por conflitos ainda mais profundos. Como o filho nas fileiras da CPI, age como provocador que torce por uma explosão de fúria, à espera de pancadaria que justifique o endurecimento político. Ativando, assim, mecanismos de repressão que alardeia e indica controlar. Canta “me dê motivos”?

Os protestos não caíram, porém, na armadilha. Pacíficos, foram críticos, simbólicos e contundentes, sendo mais expressivos que os anteriores. Denotam que há sociedade ativa e descontente; mas consciente do perigo do vírus e das ciladas políticas. O maior desafio das manifestações – que certamente continuarão – será não se perderem como instrumentos eleitorais de partidos e candidatos. Manterem-se tão abertas  quanto amplas precisam ser as articulações para tirar o país de sua maior crise.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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