O desmonte da Lava Jato foi o trunfo de Aras

O desmonte da Lava Jato foi o trunfo de Aras

Carlos Melo

24 de agosto de 2021 | 19h11

FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

 

Exemplo da escassez de Grande Política, o Brasil agradece o que está ruim hoje por medo de que possa estar ainda pior amanhã: complacentemente, aceita Augusto Aras por temor daquilo que poderia vir a ser alternativa a ele. Não só isso: também negligencia o debate sobre o método de definição do nome do Procurador-Geral, tornando-o resultado de um campo de interesses e conveniências políticas pouco promissor em relação ao processo democrático e de aperfeiçoamento institucional.

Como disse o sen. Oriovisto Guimarães (Pode-PR), “se [Augusto Aras] tivesse tido divergência com Bolsonaro, não seria indicado à recondução — como se deu com os ex-comandantes das Forças Armadas”. Aras é reconduzido menos pela preservação de seu papel institucional e mais em razão do jogo de conveniências que reúne aliados e adversários do presidente da República. Ficou claro que o indicado foi definido e referendado pela boa relação com o presidente e, também, pela execução de uma missão que parece ter-lhe sido dada por parte do sistema político: o desmonte da Operação Lava Jato.

Foi pelo menos a ênfase da defesa de seu desempenho ao longo do primeiro mandato. E, provavelmente, o tenha feito, sim, pelos notórios defeitos daquela operação, mas também por seus raros méritos. Com a água do banho, foi-se a criança.  Nada disso pode ser compreendido como “defesa da política”. Não da política necessária.

A Lava Jato cometeu erros; há caminhos institucionais normais para repará-los, ainda que ao custo de escaramuças e conflitos naturais. Mas, a Procuradoria-Geral alguma pode resumir seu desempenho a isso. Transformar o desmonte de uma operação – por mais importante — na razão e no triunfo do PGR é um despropósito.

O fundamental papel da PGR no sistema de freios e contrapesos da democracia foi solenemente ignorado. O clima da arguição no Senado levou ao sentimento de que o fim da Lava Jato valeu a missa, o resto é detalhe. Não é. Tomou-se remédio para o fígado ignorando que excessos comprometiam todo organismo.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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