O debate em torno do Manifesto do Centro

O debate em torno do Manifesto do Centro

Carlos Melo

01 de abril de 2021 | 16h08

O Manifesto em Defesa da Democracia, assinado por seis presidenciáveis, é amplo o bastante para receber adesão de quase toda a sociedade. Seria desnecessário, não fossem o bolsonarismo e seu líder. Chama atenção, então, que entre os signatários não figure um nome do PT.

Petistas estiveram nas jornadas apontadas pelo texto. No governo, à parte de problemas conhecidos, não atentaram contra a democracia: Dilma submeteu-se ao impeachment e Lula, condenado e preso, recorreu às instituições. A despeito de críticas justas, teriam legitimidade. A ausência desperta a dúvida: foram isolados ou se negaram a participar?

Ao ter-se negado, o PT fecha-se no gueto. Mas, isolado, o Manifesto assume outra conotação, tratando-se também – ou sobretudo — do ensaio de uma aliança de candidatos do Centro, com vistas à eleição de 2022. Seria legítimo e talvez não sem tempo. Mas, em nome da transparência e da gravidade do momento, as partes precisam esclarecer os detalhes – onde, afinal, moram os diabos.

A hipótese de manifesto eleitoral antecipa o tempo e aciona o processo especulativo: Ciro Gomes se encaixaria no grupo? Suas manifestações são democráticas, mas suas posições em relação à economia fogem do receituário médio moderado do centrismo reformista. Compor unidade com contradições programáticas profundas é uma arte.

Mais: os signatários renunciariam às diferenças e pretensões individuais? João Amoêdo reza por um credo definido e radical de liberalismo; João Doria carrega o estigma do personalismo e da obsessão pelo cargo; Eduardo Leite ainda precisa dizer ao Brasil ao que vem. Luiz Henrique Mandetta, o articulador do texto, terá que explicar como, com tais valores, sujeitou-se a ministro de Bolsonaro, cuja concepção democrática é conhecida desde sempre. O debate que está começando.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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