O Centro, o Centrão e as mariposas

Carlos Melo

12 de outubro de 2020 | 17h38

Foto: Dida Sampaio / Estadão

“O senhor mesmo sabe; e se sabe, me entende”.
(Guimarães Rosa)

 

Há sentidos e sentimentos que não têm nome. Fenômenos imprecisos: agridoce é acre ou doce? Guimarães Rosa disse que a “muita coisa importante falta nome”. Na política é mais ou menos assim: alguns termos sempre repetidos carecem de exatidão, por voláteis e escorregadios que são. Ocorre com o “centro político”: como não se trata de questão meramente geométrica, ele é inexato e se presta a qualquer uso. Muita gente lhe toma por apelido ou oportunismo.

Mas, o básico é que o Centro se define pela equidistância entre a direita e a esquerda. Para Bobbio, Matteucci e Pasquino, “escolhe-se o Centrismo, ou porque se crê que ambas as posições opostas apresentam elementos positivos tais que justifiquem uma síntese ou mediação, ou porque se considera que ambos os contendores estão errados; então, a via justa está em situar-se ao centro, isto é, acima das facções” (Dicionário de Política, pág. 158). Como se vê, há reflexão e ponderação; crítica e posicionamento definem o centro.

Os políticos do Centrão chamam a si próprios de “centristas”. Não são. A começar pelo fato de não se manterem equidistantes de nada. Pelo contrário, são móveis; aproximam-se à direita e à esquerda, irresistivelmente atraído pelo poder.  Trata-se de uma prática competitiva de busca de vantagens junto ao Estado e não de uma mediação política.

Sobre o atual PSD, por exemplo, Gilberto Kassab disse (em 2011) não ser “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”. E o que seria? A resposta foi dada muitos anos antes, por Tancredo Neves a respeito do PSD original — que existiu entre 1945 e 1965: “entre a Bíblia e o Capital, o PSD fica com o Diário Oficial”.  São partidos que orbitam em torno da máquina do Estado para fazer a política da “ocupação de espaços”; funcionam na lógica do Diário Oficial, uma espécie de lâmpada do poder do Estado.

Nessa lógica, o centro não reside, portanto, na política, mas no Poder. Onde “as mariposa, quando chega o frio, ficam dando vorta em vota da lâmpida pra si isquenta”. Um clássico do samba paulista e do oportunismo político nacional que na esperteza chã do fisiologismo nativo o Centrão quer ocultar.

Ao chamar a si de centrista busca-se um sentido superior, conceitualmente elevado capaz de qualificar seus membros como seres políticos, por excelência. Mas, não são. São pragmáticos com compromissos voltados interesses que, no limite, encerram-se na manutenção do status quo que alcançaram: o mandato e as bases.

É certo que política não se faz pura e sem dose de fisiologismo, que sempre há para lubrificar engrenagens. Contudo, o hiperfisiologismo suga os governos e não “azeita” nada; no médio e longo prazos, apenas empapuçará de graxa os mecanismos que cria. Assim, o termo “centrista” parece um equívoco, um exagero, uma esperteza com que o resiliente e sagaz Centrão se intitula, como no passado novos ricos compravam títulos de “Comendador”.

É um mais desserviço a confundir o eleitor, prejudicando setores que poderiam, sim, de algum modo, ser qualificados como “Centro”, por equidistantes dos extremos à direita e à esquerda, por buscar síntese ou diferenciarem-se na busca de novo consenso.  Quando se pensa no necessário rearranjo partidário para 2022, essa imprecisão pode ser tão fatal como o fosso em que se deixou cair Geraldo Alckmin, em 2018.

Centro é posição; “Centrão” é disposição. Centro é postura; Centrão é índole, natureza, prática política. “Para muita coisa importante falta nome”, mas ao invés de “centristas”, mais adequado seria identificar os políticos do Centrão de “centrãozistas”, ou coisa assim… Talvez até, mais fácil, “mariposas”. Hoje, Jair Bolsonaro é a lâmpada e o Centrão é a mariposa.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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