Lula e a ocupação psicológica do centro (O centro bobeou)

Lula e a ocupação psicológica do centro (O centro bobeou)

Carlos Melo

14 de março de 2021 | 22h30

 

FOTO: SERGIO CASTRO/ESTADÃO

O centro político, que não é Centrão, teve tempo, argumentos e oportunidades. E se deitou em berço esplêndido. Erro comum a políticos comuns, confiou na sorte, duvidando que a fortuna trouxesse Lula de volta ao cenário político. E, no desejo da permanência de um petista ressentido, irritadiço e radical, como saiu da prisão, foi incapaz de supor a emersão de um personagem astuto, observador das circunstâncias e oportunidades que o próprio centro desprezou. O centro bobeou.

Agora, desconversa e afiança que, na polarização entre Bolsonaro e Lula, se abre uma larga avenida para um candidato moderado. A História contará se é caso de novo autoengano. O fato é que o pior que pode fazer pela própria causa é sucumbir à natural sobranceria das elites, acomodadas à indolência e aos preconceitos, sem compreender o jogo e admitir a habilidade do adversário.

Lula não verá disputa à sua esquerda. Logo, não será confinado a companheiros e dogmas, como Haddad, em 2018. Poderá se mover à vontade, como em 2002 e nos primeiros anos de governo. Sem economizar ataques a Bolsonaro, buscará a inflexão moderada. Seus pronunciamentos e gestos já são sinais a eleitores centristas; a empresários, ao mercado… Até mesmo a conservadores religiosos, policiais e militares.

Com isso, opera a ocupação psicológica do centro: faz mediações, pondera, cede, sem reconhecer que cede, planta notas, constrói hipóteses e especula novos interlocutores. E assim, aos poucos, colhe espantos e elogios; adesões e até rendições. Como uma espécie de mal menor, pode fazer da suposta avenida centrista numa picada estreita e tortuosa.

Será questionado, é claro. Mas, não lhe custa tangenciar os erros do PT, omitir a danação dos governos Dilma, minimizar a corrupção que, no Brasil, não é monopólio de ninguém. No limite, cederá à pressão por autocrítica — fez isso no mensalão, pode fazê-lo novamente.  A questão é que sai na frente e se expande, num processo político que, desta vez, tende a ser menos antipetista do que antibolsonarista.

O centro, no entanto, quer crer que antipetismo e antibolsonarismo se equivalem numérica e moralmente. E que possam ser somados, a favor de perspectivas e decisões “racionais”. Não compreende que política é emoção, não compreende a lógica desses conjuntos de “antis”.

A um ano da eleição, mesmo precárias, as pesquisas apontam para o irresistível apelo da pandemia sobre outros temas. E indicam que as centenas de milhares de mortes já pesam sobre os ombros e a popularidade do atual presidente. Na teoria dos conjuntos, no antipetismo está contido o bolsonarismo; e esse tem dono. No antibolsonarismo, é necessário considerar o “lulismo”, espaço tomado por seu líder.

Na fluência e confluência dessas forças, sobraria quanto do quê? Talvez resíduos. Mais inteligente seria disputar com Lula o antibolsonarismo, ao invés de torná-lo o antagonista por excelência — ou perder-se num antipetismo capaz de fortalecer Bolsonaro, como fez Geraldo Alckmin, em 2018.

Também a dinâmica da política nacional precisa ser compreendida: candidatos a governos e legislativos já calculam vantagens e desvantagens de alinhamentos futuros. Ouvem ruídos de eleitores, leem cada pingo como letra. Captam a angústia do embate pandemia versus economia, cuja distribuição natural da maioria escoa na direção do que já se faz referência: Bolsonaro e Lula. E claro, há o Centrão que, como a personagem da ópera, é móbile.

A um ano da eleição, o centro ainda não encontrou discurso nem rosto; apenas o mal-estar de seus próprios erros. “Que fazer?”, pergunta difícil. O fato é que, enquanto isso, Lula vai encontrando seu centro.

Terceiras vias são processos lentos. Todavia, mantida a normalidade do jogo, a primeira providência dos centristas deveria ser a definição do que, afinal, são “na essência”: antipetistas ou antibolsonaristas? Essas polaridades de negação devem dominar o debate e não facilitarão espaço para sutilezas e dubiedades: quente ou frio? O morno não empolga. Não se posicionar com clareza será mais um erro. Na vertigem da crise e na ressaca de seus erros, é necessário definir qual, afinal, é o inimigo. Lula definiu o seu.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

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