Reforma ministerial: Bolsonaro é refém de um sistema que não soube controlar

Reforma ministerial: Bolsonaro é refém de um sistema que não soube controlar

Carlos Melo

21 de julho de 2021 | 13h08

Foto: Beto Barata/Agência Cãmara

Reformas ministeriais fazem parte do processo político. Em tese, visam aprimorar a eficiência geral do Executivo: o desempenho administrativo, a representatividade e prestígio social do ministério, a governabilidade e os vínculos, no Congresso Nacional, por meio do compartilhamento de espaços de poder. Em tese, são pensadas no contexto de amplos projetos de Poder, de desenvolvimento econômico e social.

No caso concreto do Brasil, porém, tese e realidade se desencontram frequentemente. Sob as circunstâncias que abraçam Jair Bolsonaro esse desencontro parece ainda mais dramático.

É fato que a maioria das reformas ministeriais, no País, é feita sob a pressão dos riscos da fragilidade de vínculos entre o governo e o Parlamento. Dão-se quando o sistema de barganhas entra em colapso e precisa ser repactuado a preços crescentes para o Executivo. Sob Bolsonaro, os valores estão hiperinflacionados.

A presente reforma se dá à sombra de mais de 100 pedidos de impeachment, do quase total descrédito diante da opinião pública, fruto dos múltiplos colapsos, da economia à Saúde Pública, revelados no cotidiano das pessoas e no dia a dia das sessões da CPI da Covid-19. As perspectivas eleitorais são desalentadoras para a base governista, como demonstram as pesquisas de opinião. O “Custo Bolsonaro” aumenta em cada rincão do País; natural que os preços disparem e atinjam espaços centrais de poder.

Hoje, Bolsonaro é refém de um sistema que não apenas não soube controlar como a ele se entregou docilmente, embora sem admitir a seus fanáticos. Pois, ao mesmo tempo, é refém da própria língua porque seus gestos negam o farisaísmo eleitoral que, um dia, explorou.

Da “nova política” ao aprofundamento de sua capitulação, Bolsonaro é consciente da regra básica do fisiologismo: quanto mais fraco o governo maior é o preço a pagar. A Casa-Civil é o coração do governo. Nas mãos de Ciro Nogueira, a tendência é que ceda mais e mais nacos de poder e orçamento. O Centrão não perde tempo na fila do osso.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

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