O 13 de março, o governo, Lula, Dilma e o PT

Não se atribua ao 13 de março toda a desgraça do governo. O processo é longo. E também não se atribua ao juiz o resultado da partida. O governo cansou de marcar gols contra.

Carlos Melo

14 de março de 2016 | 13h21

Operacionalmente, o governo Dilma já jazia em decúbito ventral; o 13 de março, marca sua morte na opinião pública. Mas, no Congresso, respira por aparelhos que indicam que pode estar no final o ciclo dos governos petistas. Dependerá de muita sorte, das manhas da fortuna e de instrumentos muito mais precisos, além da reza e da fé, para sobreviver ao final do processo que parece começar apontar para um inevitável desenlace.

É preciso enfatizar: foi o 13 de março, apenas, mais que vulnerável, o governo vinha abatido, incapaz de reagir. Sequer nomear o ministro da Justiça, sem atropelos, foi capaz. A economia vive sua maior crise; a política empaca, num parlamento inóspito; a agenda do ministro da Fazenda, de tão ambígua, se perdeu; a foice do fantasma da Operação Lava Jato decepa esperanças, as delações premiadas sepultam todas ou quase todas as desculpas possíveis e imagináveis. A epidemia de zica, enfim, chegou ao poder.

A multidão nas ruas, claro, tem importância simbólica, num jogo em que os símbolos sacramentam resultados. Mas, parafraseando o samba, “aí a notícia carece de exatidão”: o governo não mais existe, ninguém destrói o que já acabou. A multidão nas ruas foi apenas sopro num corpo que já despencava no precipício e que ainda paira no ar, a caminho do chão.

Que dizer de um governo embaralhado num jogo tão complexo como este? Sinal de atarantamento, esclerose, fim de linha. Difícil responder, mas a quem ainda acredita que Dilma seja capaz de reagir, é justo perguntar: se é capaz, então, por que a situação precisou chegar a este ponto? Quem não pode o menos, dificilmente conseguirá o mais.

As opções de resistência são, no mínimo, controversas: nomear Lula, engolir o semiparlamentarismo, semipresidencialismo, nada disso faz sentido; não existe semipoder. Para que Dilma saia desta, as vacas precisarão tossir, e muito, novamente. Em primeiro lugar, o PT e seus aliados terão que provar nas ruas que são maiores, mais amplos e mais aguerridos que o 13 de março. Em segundo lugar, abrir a porta de saída que há anos não têm se mostrado capazes.

A opção Lula no ministério, a mais aventada hoje pelos petistas, é estratégia de risco, tipo “perdido por dez, perdido por mil”. Para a biografia do ex-presidente é um desastre ainda maior do que o que já vive – Lula não merece mais essa. Para o governo, é o extremo da dramatização: confiar num mito, num santo que pode já estar descoberto é sempre medida de desespero. Qual grande economista, que setor empresarial relevante responderia, hoje, nessas condições, a um chamado de Lula? A estratégia de uma guerra de trincheiras parece pouco eficaz.

Enfim, no futuro, é possível que a história cante em verso e prosa este dia 13 de março. Mas, é apenas um símbolo, talvez como uma espécie de Queda da Bastilha. O processo de acúmulo de erros, de displicência, de imprevidência, na verdade, vem de longe: esgotamentos estruturais conjugados a erros crassos. Complexa construção, mas simples de compreender, visto em perspectiva.

A retórica governista sempre há de falar em golpe. Faz sentido, sempre haverá um juiz que não deu um pênalti para nosso time, que não anotou o impedimento do adversário. Mas, política é mais cruel: golpes do improviso, golpes da soberba, golpes de inabilidades pessoais, golpes da ideologia, da negligência política são mais determinantes que a ação de qualquer juiz. Necessário admitir: os adversários mal se aguentavam em campo; foram os gols contra de Dilma, de Lula e do PT que dilataram e estão a definir o placar.

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Não se trata certamente de uma sociedade dividida – pelo menos não em partes iguais. Lula, Dilma e o PT perderam a maioria, agarram-se à sua base orgânica, mas perderam a maioria. Buscam se articular a movimentos sociais, setores corporativos — em parte, ideológicos; em parte, profissionais: sindicalistas, militantes, intelectuais, artistas, professores universitários. Mas, perderam a maioria, este é o fato inelutável.

Muitos dos que tentamos agarrar o passado — nossa linda juventude que um dia se enamorou da utopia petista, morta na adolescência pré-poder — sofrem. De fato, reconhecer que não deu certo é sempre muito difícil; melhor seria admitir que muita coisa deu certo, outras não; algumas, um dia, ainda podem vingar. Mas, o fato é que já não existe mais a maioria e isto põe em xeque o discurso da democrático de outros dias.

Sim, os erros não apagam os acertos de Lula e do PT; mas os acertos de Lula e do PT não podem servir para mascarar a realidade, esconder os erros. É mesmo uma pena que tudo se passe assim. O poder é uma arma quente, que arde nas mãos de quem a segura; um estingue virado para o rosto de um menino sem habilidade para manuseá-lo.

O fato é que tudo se transformou: o “nós contra eles” teve fôlego curto; o “nós” e “eles” se inverteram, e o nós de ontem se fragmentou em milhares de “eus” perdidos e solitários nessa quadra da história. Lula e PT perderam o sentido plural, é o fato. E hoje caminham para o mesmo isolamento em que Dilma já está recolhida.

O partido tende a voltar a seu tamanho original, de 20% do eleitorado, e seu viés é de baixa, passadas as eleições municipais deste ano e a hecatombe que deve desfechar o processo de encerramento do governo de Dilma e do mito de Lula. Será um boa força 10, 15% de preferência popular: piso alto e teto baixíssimo.

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Sobre Lula cabem um ou dois parágrafos: atribuiu-se ao ex-presidente a frase “se me prenderem, viro um herói; se me matarem, viro mártir; se me deixarem livre, viro presidente da República”. Cauteloso, o Instituto que leva seu nome apressou-se em negar a autoria da frase, que denota um triunfalismo oco e uma arrogância sem sentido; provocação perigosa, como a “cabeça da jararaca”.

Não se deve descartar que Lula não seja nem preso, nem morto, nem presidente; mas que seja desmoralizado. E aí não importará se será preso ou morto, porque, de fato, desmoralizado, não será herói, nem mártir, nem presidente. O destino de Palocci ou o bafo de Dirceu: a desmoralização política. Lula precisaria se explicar, ao invés de ranger os dentes.

Mas, também pouco importa que seja culpado ou inocente, se há ou não provas contra ele; pouco importa se outros também fizeram o que fizeram ou se a Justiça é cega de um olho só. O julgamento da história leva décadas; no presente o que pesa são as versões. Certos ou errados, Lula e Dilma perderam a luta pela versão. E falarão, daqui por diante, para públicos cada vez mais limitados, o gueto! A maior tendência é que as tais massas já os tenha abandonado.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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