Nada a comemorar

Sobre o impeachment, seu sentimento e nosso desacerto para o futuro.

Carlos Melo

29 Agosto 2016 | 14h55

Pode-se acreditar que a incidência de dois impeachments, em menos de 25 anos de história, seja sinal de fortaleza política, de instituições saudáveis. Trata-se de um clichê que revela um modo torto de pensar equivalente a comemorar a insistência de um câncer num mesmo paciente, vivo após duas cirurgias – sinal do avanço da medicina? Não é o caso. Melhor e mais prudente compreender e aceitar que o corpo é doente, que carece de terapia e cuidados permanentes. O caráter recidivo do impeachment, antes de tudo, é sinal de um sistema frágil, de precariedade política; não o contrário.

É bom lembrar que, no Brasil, somente em 2010 um presidente eleito (Lula) entregou a faixa a outro presidente eleito (Dilma), tendo, antes, recebido ele mesmo a faixa de um presidente igualmente eleito pelo voto direto e popular (FHC). Faz 6 anos, apenas; e a série é módica: meros três presidentes eleitos consecutivamente. O período da distante Primeira República (1889 – 1930), oligárquica e sem povo, não serve de comparação. O próximo presidente, eleito em 2018 já não será assim. Com muita sorte, poderemos reeditar a cena de FHC-Lula-Dilma apenas em 2026 — sem contar com a eventualidade de reeleições.

No cardápio eleitoral do futuro mais próximo, no entanto, há muita controvérsia e é difícil vislumbrar o que ou quem possa conduzir o país de volta ao rumo do desenvolvimento político e social, do aperfeiçoamento democrático, sem mais abalos. Lula, o mais forte de acordo com as pesquisas, é, por todos os motivos que sabemos, um pato manco; o PSDB fracionado por disputas, visões de mundo e candidaturas, não consegue entendimento interno sequer para a disputa da prefeitura de São Paulo; Marina Silva, líder moral talvez, tem dificuldades em dizer ao que veio, parece frágil para conduzir o país nesta borrasca; no PMDB, seus representantes carregarão o estigma da conspiração, sendo alvo de retaliação.

Salvadores da Pátria, por sua vez, não se adaptam ao sistema, basta recordar Jânio Quadros ou Fernando Collor para saber no que dá; têm curta vida política. Com olhos de hoje, as perspectivas para 2018 não dão muito alento. Não há coletivos políticos e sociais, pluripartidários, capazes de expressar a indispensável liderança política, fazendo um bom e correto diagnóstico da crise, articulando atores e vontades, no caminho para sua superação. Há apenas disputa, na maioria das vezes, significando nada.

Dá-se a isto o nome de uma crise de verdade, muito mais duradoura do que o piscar de olhos, em termos de história, que é um impeachment.

A doença desperta narrativas díspares — e oportunismos de toda ordem: uns questionam se basta não simpatizar com o governante para descartá-lo ou se a má condução da economia seria pretexto para cassá-lo. Faz sentido. Outros argumentam que um governo que perdeu a credibilidade e, junto com ela, a governabilidade não tem como se sustentar. Ademais, o que a Lava Jato trouxe à tona fere o próprio processo eleitoral. Não há como omitir isto.

O fato é que o poder pelo poder produz seu próprio veneno, seja na disputa ou na sua manutenção. Diante do espalho, os argumentos são contraditórios entre si. As causas da doença não cessaram – Lava Jato, crise econômica, sistema político fisiológico e voraz – as engrenagens giram em falso; o processo parece não ter fim. O país, desajustado, guarda camadas de ressentimento. O conflito não cessará, em que pese a debilidade e a irrelevância a que o PT – protagonista por tanto tempo – se submeteu e tem se submetido. O antagonismo improdutivo prosseguirá por muito tempo.

Parte substancial da sociedade pode respirar aliviada com a queda de Dilma – provavelmente, a imensa maioria. No poder, Dilma realmente abusou da teimosia de um idealismo tão autossuficiente quanto arcaico. Também o PT abusou em ser mais do mesmo daquilo que criticava na tradicional política brasileira. Infelizmente, a esperança se lambuzou de poder. As promessas e os desafios históricos ficaram para trás.

Mas, também é fato que a fragilidade de Dilma e a cupidez do PT beneficiaram todo o tipo de oportunismo que hoje se arroga em moral duvidosa: corrupção, esquemas financeiros, dentro e fora do Congresso, também se alojam no governo, de Michel Temer, num fisiologismo sem amarras. Também o farisaísmo oposicionista de ontem, capaz de apoiar pautas populistas persiste hoje com sinal trocado. Numa escalada insana a intolerância mútua desgastou Dilma; e Dilma desgastou seu ministro, Joaquim Levy. O país sofreu seu bombardeio. 2015 passará à história como o ano da insensatez.

Argumentam os defensores do impeachment que, pelo menos na área econômica, o governo Temer é melhor que o de Dilma. Certamente, é – e seria mesmo difícil que não fosse. Mas, um governo é um todo de problemas e desafios. As maiores questões estruturais estão longe da superação: a crise econômica permanece e falta coragem e disposição para enfrentá-la. Corporações empoderadas e interesses particularistas tomam e dão de costas aos interesses gerais. A fragmentação é grande; a possibilidade de aglutinação, diminuta e precária.

Pobre democracia que se contenta com o melhor relativo – Temer versus Dilma — e desiste de buscar o bom – sem se prender ao fictício ideal. Triste moral que se sustenta em preferências estéticas e políticas, pessoais, fugindo, assim, do rigor de princípios em que até ontem desfraldavam sua bandeira. Nada a comemorar, se não para se preocupar. Pelo menos até que o futuro desminta este mau presságio do presente.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.