Na velocidade dos fatos

A batalha vai se dar na opinião pública. Na espreita, o Congresso se posicionará após isto.

Carlos Melo

04 de março de 2016 | 10h21

Perdidos numa manhã veloz, na velocidade de fatos que atropelam outros fatos. Lancinante conjuntura. Ainda ontem era Delcídio do Amaral e suas revelações escabrosas. Hoje, com os primeiros raios do dia, a condução coercitiva de Lula. As pessoas querem do cientista político uma bola de cristal; definir a seco o que será. Ele mesmo, analista perplexo, é atropelado por esses fatos. Tudo o que se pode fazer é intuir o óbvio, no máximo, o provável. Tatear a história.

O certo é que tudo o que os fatos não fazem é fortalecer Lula, o governo e o PT. Seus aliados nas redes sociais apontam o “golpe midiático”, os “abusos“ de Sérgio Moro, do MP, da PF, o absurdo de quem e do que quer que seja. E, dizem, o exagero despertá as massas. Jus sperniandis, o direito de reclamar. E de torcer. Faz parte e é bom que tenham espaços para isto. Têm direito

Mas a questão decisiva não reside na retórica, no verbo solto e agressivo. Decisivas mesmo serão as imagens, o imaginário, a opinião pública. Os petistas falam de uma reação nas ruas, de movimentos e militantes; é de se esperar. Mas é também provável que não mobilize mais o que um dia foi capaz; que se limite aos organizados em setores corporativos. E, nesse caso, o PT estará descoberto, desprotegido. O PT, Lula e Dilma.

Sua ação no Congresso – o próximo passo – será agressiva, desesperada, mas, o mais provável, inconsistente. Ali, naquela arena, se jogará o principal jogo.

É hora de a oposição ficar por cima, surfando a onda da desgraça petista, nas declarações não assumidas por Delcídio e nas imagens pouco lisonjeiras de Lula, nesta manhã. Se a oposição contasse com líderes capazes de vocalizar, no ponto certo, o sentimento do tempo e, ao mesmo tempo, sinalizar a saída mais inteligente e suave, sem revelar ressentimentos e desforra, estaria feita. Mas a oposição também sofre de seus vazios.

É claro que empunhará novamente a bandeira do impeachment, que os mais líricos acreditavam morta. Essa bandeira se reinventa agora. Não mais pelas mãos e interesses escusos de Eduardo Cunha – que a deslegitimava –, mas pela boca e pela pena de Delcídio, líder de Dilma e habitué do Palácio até quase ontem. Pelas cenas de um Lula acorrentado e enfraquecido.

Se no passado o PT deu fé a um irmão (Pedro Collor) e ao motorista (Eriberto França), por que seus adversários não ampliariam a voz de seu senador e ex-líder do governo? Justo ou injusto, às vezes, se morre do próprio veneno. E esse tipo de ironia é mais inapelável que os golpes ou complôs dos deuses e da sorte. O chicote, agora, bate no lombo do PT.

Tudo ficará, então, por conta da opinião pública, da capacidade de mobilização dos “favoráveis” e dos “contras”, nas redes, na mídia, nas ruas. A situação, é claro, fica ainda mais tensa; quase explosiva. Escaramuças e sopapos amiúde; tomara fique nisso, apenas.

No Congresso, restarão os que compõem aquela parcela esperta, que fica à espreita, à espera dos fatos e do rumo dos ventos. Vírus oportunistas. Deputados e senadores, fiéis da balança, se posicionarão nesse ambiente, nesse vibe. As manifestações do próximo dia 13 e tantas outras que houver é que definirão o posicionamento de suas excelências e, por consequência, a sorte de Dilma.

Enfim, o mar se recolheu e formou uma onda magnifica de grande, assustadora para o sistema político e para o futuro. Dilma está com água pelo nariz e, por tudo o que já vimos, sabemos que não sabe nadar – e, talvez, apenas nadar não resolva mais o problema.

O que será a partir daí, bem… Não se sabe. Perdidos numa manhã veloz, no país em que as vacas tossem, só o desenrolar dos fatos é que dirá o que será. Quem nos navega é o mar.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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