Lula: tentativa de inflexão ao Centro

Carlos Melo

10 de março de 2021 | 14h13

 

Foto: André Dusek/Estadão

 

O Lula que emerge da decisão de Edson Fachin é outro daquele que saiu da prisão. Seu pronunciamento mostrou o “ser político”, no estilo de 2002. Conciliador mais amplo que os estreitos limites adotados por ele e o PT, nos últimos anos. Clara tentativa de inflexão ao Centro, presente em gestos e ambiguidades ao longo do discurso.

Primeiro, o álcool nas mãos; licença para retirar a máscara, considerando a distância preventiva. Lembrar dos quase 270 mil mortos, referência às famílias enlutadas. Recomendações a todos que se preservem e tomem vacina. Começou aí a exposição de diferenças em relação a Jair Bolsonaro, a quem carimbou como “Fanfarrão”.

Depois, a declaração de concórdia: “se tem um cidadão com razão de estar magoado, sou eu. E não estou”. Vitimizou-se, mas não encalhou nas poças do ressentimento. Buscou a política, a disputa; desancou Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato, mas reconheceu a Justiça, com elogios a Gilmar Mendes, seu desafeto antigo. Sinais também para as Forças Armadas, para as Polícias, que, na sua visão, precisam de armas, “não a sociedade”.

E mais diferenças: o amplo leque de relações internacionais; do Papa Francisco a Bernie Sanders; a prefeita de Paris, que o condecorou… Lista longa, com a prudência de mencionar Nicolas Maduro apenas quando provocado, já nas perguntas dos jornalistas.

Igualmente tangenciou Dilma Rousseff, não se atendo ao impeachment, nem utilizando a expressão “golpe”, cara ao PT. Se é verdade que não lhe reconheceu erros, tampouco a transformou num estandarte a ser defendido. Não hostilizou partidos que a derrubaram. A seu modo disse, “vida que segue”.

Criticou a imprensa, a Globo em especial. Mas, abriu portas com elogios explícitos ao Jornal Nacional. Os sinais para o mercado: “não tenham medo de mim”. O “morde e assopra”; a essencial ambiguidade da política. Por fim, a comunicação direta com o povo: “vocês não sabem como ficava feliz quando eu ouvia um trabalhador dizer ‘vou comer uma picanha e tomar uma cerveja’”. Uma estocada no fígado de Bolsonaro.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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