Impeachment de Dilma: sem surpresas

Carlos Melo

12 de maio de 2016 | 08h37

O “inimaginável”, há dois anos, evoluiu para o “possível”, em meados do ano passado; tornou-se “provável”, no início deste ano, e “inevitável” já no início de março. Nesta semana, consolidou-se como meramente “natural”. Embora possa causar trauma, dor, decepção e preocupação com a qualidade da nossa democracia, a autorização para o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff não traz surpresa para quem acompanha com atenção o desenrolar da cena política nacional.

A verdade é que a própria presidente e seu grupo contribuíram para a desgraça: foram inúmeros os desatinos, os erros, as omissões, as trapalhadas… Talvez, por acreditar que não aconteceria, pela simples torcida de que não poderia acontecer, Dilma e seu grupo foram negligentes com o perigo. Governo que não assegura pelo menos um terço de apoio na Câmara e no Senado é governo morto, posto, deposto. Passado. O triunfalismo e a arrogância, a dificuldade de fazer autocríticas e promover correções são os elementos que, normalmente, põem a perder as hegemonias políticas. No caso de Dilma, deu no que deu.

E, numa semana ruidosa, de barafundas e ridículos vários – a vergonha alheia em torno do quiproquó de Waldir Maranhão (PP-MA) –, o Senado com frieza profissional determinou que a presidente eleita pelo PT se afaste do cargo, de modo que seja investigada por crime de responsabilidade. Sendo o caso, será definitivamente impedida de concluir seu mandato. É pouco provável que Dilma volte, todos sabemos. Não cabem ilusões ou esperanças de um fato novo e extraordinário.

Fecha-se assim o ciclo do PT no governo federal. Pergunta-se, agora, qual seu legado. Há pontos positivos, há pontos negativos; muita coisa deu certo, muita coisa deu, evidentemente, em erro e calamidade.

Positivamente, há que se ressaltar a definitiva atenção para a questão social no Brasil; a orientação de políticas públicas voltadas à inclusão: Bolsa Família, ProUni, Minha Casa Minha Vida, Fies são símbolos que tendem a ficar tanto quanto a histórica da desigualdade social brasileira persistir. Num País de elites pouco sensíveis como o Brasil, estas não são questões de pouca monta.

Negativamente, por sua vez, fixa-se a avaliação de um governo que, antes de fazer os necessários enfrentamentos – desde sempre prometidos pelo PT – em relação ao que de pior há no sistema político (oligarquias, clientelismo, corporativismo, aparelhamento do Estado, corrupção), contemporizou, aliou-se e assimilou o status quo político. A promessa de um ambiente republicano, efetivamente democrático, ficou pelo caminho e a transformação política desejada foi, ao final das contas, deixada de lado.

O PT desaparecerá; qual o destino da esquerda no Brasil? São questões que ficam e é bastante precário responde-las desde já. Muito dependerá do que farão os futuros governos – a começar por Michel Temer – para enterrar ou ressuscitar um PT ou determinada esquerda capazes de se renovar – serão capazes de se renovar? Hoje, são os cacos espalhados pelo chão, a fragmentação, o ressentimento e o desespero que ainda preferem encontrar na oposição, na mídia, no mercado a origem de todos os males e da frustração presente. É normal; faz parte. Respeite-se o luto.

Mas, como a vida sempre segue, o melhor é olhar para frente. Cuidar da frágil democracia nacional, reestruturar a economia e apostar na possibilidade de reforma e aperfeiçoamento de um sistema político precário, raiz evidente do desvio e do conflito presentes. Acreditar – sim, voltar a acreditar – que outro mundo e outra política ainda são possíveis.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.