História

"Mais uma flechada em São Sebastião"? Claro que não. O processo está mais para o espancamento da história.

Carlos Melo

26 Novembro 2015 | 09h41

Adivinhar o futuro é tarefa tão custosa quanto vã; mas o futuro não é a Deus que pertence. Ele é fruto do processo que se delineia sempiternamente, minuto a minuto no constante no presente. Mais ou menos, o que dizia o Velho Marx: “os homens fazem a história, mas não sabem a história que fazem”. O que será o destino do governo Dilma ou do ex-presidente Lula? Quem saberá dizer… só mesmo o processo é que permite indagar, como uma bola de cristal um tanto menos inconfiável, que esse destino não será nenhum pouco brilhante quando construído de todas estas sombras do agora.

Vistos com olhos de hoje, é impossível não admitir que Dilma e Lula estão metidos numa consistente e indesmentível enrascada. Não se trata de simples “armação da mídia” ou da estupefata, nefelibata e inofensiva oposição. A tergiversação de Lula não consegue omitir o óbvio: as justificadas prisões de José Carlos Bumlai e de Delcídio do Amaral desenham um abismo que olha para a atual e para o ex-presidente como que os convocando. Negar isto não implica apenas em “petismo” ou “torcida” ou teimosia, mas em remata da tolice.

A situação que estava distante de ser favorável ou caminhar para uma melhora – ler aqui “equilíbrio instável” –, evidentemente, piorou muito e aceleradamente. O nome dado à operação que colocou Bumlai atrás das grades – “Passe Livre” – é uma ironia não com o agora detento que, antes, tinha livre circulação nos Palácios de Luiz Inácio, mas com o próprio ex-presidente. Uma estocada indireta de quem já provoca, mas ainda não quer ir às vias de fato, já que, ao que parece, nos cálculos de Sérgio Moro e de sua turma, não é hora de um enfrentamento direto e em mar aberto contra Lula. Momento que chegará, pelo rumo dos ventos.

Dizem os mais crentes que isso tudo é irrelevante, que Lula é forte e os fatos apenas “mais uma flechada em São Sebastião”. Com efeito, São Sebastião morreu açoitado. E a quantidade de pancadas que o ex-presidente tem levado, a vulnerabilidade (inclusive familiar) a que tem sido exposto, não o fortalecem – nem adianta insistir com mitificações ou sofismas: a situação de Lula está longe de qualquer controle; a diminuição de sua densidade política é inegável; Lula está “despoderado” ou em processo de franco “despoderamento”. Nem mesmo sua base histórica — já não tão jovem e nem tão petista — parece acreditar em sua mitologia.

Com Dilma não é diferente. Seu governo não consegue encontrar saídas; nem mesmo o remédio amargo parece viável — quanto mais o doce ajuste com crescimento!!! Se um é impraticável pela política, o outro é improvável pela economia. O beco é escuro e as poucas luzes se apagam. Agora foi o caso de Delcídio do Amaral. Não é pouca coisa: o senador era ativo líder do governo; estava longe de ter papel decorativo. No processo de negociação parlamentar — já tortuoso e dificílimo –, possuía maior trânsito que qualquer outro líder (sic!) petista. Seu recolhimento forçoso e sua desmoralização não abrem lacuna, expressam-se num rombo na articulação do Planalto.

E se fosse apenas isso… Sua prisão, assim como a do banqueiro André Esteves, estabelece nova rodada de pânico. Ninguém é capaz de saber qual a decorrência disto; o que será “encontrado” nos arquivos, nos celulares, nas anotações. Se estarão dispostos a colaborar; quem será implicado; quais as ramificações de mais esta lambança em que meteram o país e, sim, o governo. O mínimo que se pode dizer de ambos é que são indivíduos muito (mas MUITO) bem relacionados; o grau e o raio de irradiação dessa fonte de energia é ainda imensurável. Quem estaria contaminado pelo contato? Delcídio, por exemplo, era das poucas pessoas a ter, ele também, uma espécie de “passe livre” com Dilma. O que pode resultar? É claro que esse futuro não cabe a Deus.

Como tenho assinalado, o país está condenado a uma crise crônica, com momentos de piora. Vive, no momento, mais uma fase aguda. O corpo sofre e a alma parece querer se libertar; já não estar nesse mundo. Mas, ninguém vai antes da hora. O timing é o da política e o processo é o da história. Vivemos a história, sem saber a história que está sendo feita.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.