Fatos, refatos e nó no vento

Fatos, refatos e nó no vento

Carlos Melo

29 de setembro de 2020 | 17h15

Foto: Evaristo Sá/AFP

 

Não se pode negar ao presidente Bolsonaro disposição e persistência para inverter a lógica e construir raciocínios que conduzam os desatentos à interpretação da verdade ao gosto de seus interesses. Se ninguém tem direito aos próprios fatos, Bolsonaro inventou um modo de recriá-los, transformando-os assim em seus refatos, a narrativa que mais lhe convém. É habilidoso em fazer crer que o vento que venta, não sai também de suas próprias ventas.

Desnecessário repetir para o leitor do Estadão o que aconteceu com o mundo desde que um novo vírus foi descoberto na província de Wuan, na China. O que se temia há muito tempo – que o mundo viesse a se tornar refém de novas doenças para as quais não haveria remédios, no primeiro momento –, ocorreu. O Covid-19 surgiu, foi batizado e mudou a história.

Ora, em casos assim, a ciência, sabedoria possível e testada, sabe que é preciso dar tempo ao tempo até que uma vacina seja desenvolvida. O Covid-19 mata e todos nós já temos, infelizmente, casos mais ou menos próximos, para compreender essa realidade difícil e sentir a sua dor. O que haveria de ser feito era mesmo atrasar o contágio, até que o sistema de saúde estivesse minimamente organizado para enfrentá-lo e uma vacina fosse desenvolvida.

Luiz Henrique Mandetta, primeiro ministro da Saúde de Bolsonaro, logo percebeu isso e buscou informar e orientar o presidente: os meses que viriam seriam difíceis; poderíamos chegar a 180 mil mortes. O ministro fez o que uma liderança responsável deve fazer: conscientizar e animar, buscar luzes no final da jornada. Não tardou a despertar o ciúme de seu chefe.

Seguindo seu líder mundial, Donald Trump — que nos Estados Unidos avaliou que seria melhor esconder a realidade da população e enganá-la –, Bolsonaro deu pouca ou nenhuma importância à pandemia, que de modo pouco original chamou de “gripezinha”. Contudo, quando percebeu que a coisa era séria e deixaria marcas, refugiou-se no discurso dos efeitos econômicos que as medidas de distanciamento social inevitavelmente causariam. Fez uma curva no vento, mudando a direção de seus erros – sem admiti-los ou revertê-los –, apontou não soluções.

Nunca admitiu a gravidade da doença ou solidarizou-se com vítimas – a cada marco de avanço da pandemia, foi ao treino de tiro, à aventura do jet-ski, insinuou fazer festa –; tornou-se o inimigo número 1 da política de distanciamento social. Ameaçou intervir em estados e municípios até ser desautorizado pela Justiça – que, ao contrário do que diz o assovio de seu vento,  não o proibiu de agir, mas delimitou o raio constitucional de sua ação.

Foi salvo pelo Congresso Nacional, cujas lideranças perceberam que se não havia vacina para o Covi-19, para a recessão haveria: auxílios emergenciais, aumento do gasto público de modo a mitigar efeitos imediatos e abreviar, com isolamento, o período de quarentena. O presidente fez outra curva no vento e tomou para si a paternidade dos auxílios. Ok, na política, mesquinharia pouca é bobagem.

O problema mesmo era continuar estimulando o boicote ao distanciamento social, pois ambos – isolamento e auxílios — deveriam ser políticas complementares. Um sem, o outro equivaleria a jogar dinheiro fora. Foi o que aconteceu: o Brasil gastou milhões que não tinha e não terá para dar conta do tsunami de problemas, e nem por isso conseguiu evitar o quadro que pode chegar a algo próximo de duas centenas de milhares de mortos em virtude da “gripezinha”.

Mais uma vez o presidente faz vento, com a mesma disposição e persistência: colocando-se como visionário, anuncia que a partir de janeiro de 2021 a crise social poderá explodir – “eu previ isso lá atrás”, diz. É mesmo? Declara que “a esquerda” – “esquerda”?, que esquerda? – explorará a tragédia das ruas; afirma que, seguindo a tradição militar, não se omitirá. Não? E o que fará?

Pelo jeito, continuará a dar nó no vento. Até aqui, o tem feito com relativo sucesso pessoal; esse vento o conduz, à deriva, mas conduz.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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