Equilíbrio instável

Aparentemente, o governo passa por um momento de alívio. Para seus mais otimistas defensores, o impeachment da presidente estaria descartado. Será isso mesmo? O equilíbrio presente é instável e o impeachment -- que pode ocorrer ou não -- tende a continuar presente como um espectro que arrasta correntes.

Carlos Melo

09 Novembro 2015 | 16h35

Jaques Wagner é um sujeito jeitoso: acessível, amante da prosa, capaz de seduzir interlocutores. É profissional da política, concilia interesses e negocia acordos; ex-governador da Bahia, possui a lentidão da calma e não se afoba, nem acelera: transigente, por pragmático, não briga com fatos ou espalha brasas; reúne, agrega, ajeita. É contraste positivo de Aloízio Mercadante, o antecessor cintura dura, fechado e idiossincrático – a voz interior de Dilma.

Por conta da atuação de Wagner, a articulação do governo melhorou muito. Apesar de arestas naturais, ele e Ricardo Berzoini formam uma dupla mais serena e de maior competência no mister e na arte do dar para receber. Mesmo lidando com adversários, são mais cordatos, cerebrais e objetivos. Jogam um jogo marcado, ainda sem resultados efetivos, é verdade. Mas, dentro das circunstâncias, têm trazido uma lufada de ar para um governo asfixiado.

Outra brisa que sopra vem da desgraça de Eduardo Cunha. O presidente da Câmara, antes com a faca e o queijo do impeachment nas mãos, é agora só defesa e ameaça, receio e dissimulação. Ganhar tempo é sua estratégia, esperança para proteger a família e preservar o mandato. Do ponto de vista do governo, Cunha ainda requer atenção e afagos, o monitoramento gradual e sem riscos do inferno em que se meteu. Demanda a sinalização acordos e instalar um cordão de isolamento em torno de sua figura.

Além disto, na percepção de melhora do quadro político do governo está a oposição que se perdeu — na fixação do impeachment ou da impugnação de Dilma como ideia fixa, de quem tem poucas ideias. Adversários débeis é quase tudo o que governos pedem a Deus. Programaticamente, os tucanos se descapitalizaram, sendo atropelados pelo bonde do PMDB, que reuniu inteligências e, agora, expressa críticas e saídas esperadas, antes, do PSDB.

Politicamente, a tropa aecista apenas tardiamente percebeu que, antes de marionete, Eduardo Cunha seria brinquedo perigoso para a reputação do partido de FHC, que tudo concedeu – e muito perdeu. Não se compreendeu que menos que lança aguda contra Dilma, Cunha materializava-se em contradição: o instrumento e, ao mesmo tempo, a desmoralização do impeachment; espécie de roto sem credibilidade para falar do rasgado.

Sob estes pontos, com efeito, a situação do governo melhorou. E por isto não faltam analistas que agora descartam o impeachment, folha morta, página arrancada. Dilma poderia virar de lado e até mesmo sorrir.

***

Mas, a precipitação é o vício comum de quem quer sair na frente. O Brasil é o país onde as vacas tossem e nem mesmo o passado é certo. De modo que o mais prudente é admitir que tudo ainda é muito instável e que a volatilidade é o espírito dos nossos dias; que Jaques Wagner, mesmo jeitoso, não aprendeu o milagre da multiplicação dos pães.

Cargos até existem, mas como distribuí-los sem conflito e garantir, à base indócil e voraz, os recursos do orçamento? O fisiologismo em que Dilma se acorrentou exige fatias crescentes de poder às quais um Estado às portas da bancarrota é incapaz de assegurar. O mais provável é que promessas de hoje não sejam cumpridas depois de amanhã. No médio prazo, tudo pode voltar ao ponto em que já esteve, a crise aguda.

Mesmo a Eduardo Cunha o governo quase nada pode assegurar além dos votos na Comissão de de Ética – e mesmo assim, talvez. A condescendência do Ministério Público ou da Justiça parece improvável. Se fosse capaz dessa magia, por que permitiria o constrangimento de empresários e petistas? Ademais, Cunha é credor de uma centena de parlamentares, seu poder de influência não cessa com a perda do cargo. Barbas de molho: os fios de bigode de Jaques Wagner podem não bastar.

Há mais: Dilma Rousseff e o PT deixaram de ser perspectiva de poder continuado. A presidente não é candidata e, para além do impedimento legal, não parece que possa ter influência positiva na sua sucessão. Tampouco Lula mantém o viço. Embora, individualmente, seja a maior força política do país, seus 23% de Ibope não fazem maioria: o piso é alto, mas, o teto é baixo. Rejeição nas nuvens e muito a explicar.

Fosse apenas isto! Há os efeitos sociais da inevitável piora econômica: desemprego, perda de renda, greves, locautes, recrudescimento do mal-estar e da violência; as notícias do front da corrupção — Lava Jato e que tais – que geram desânimo e revolta, a situação de estados e municípios e o contraponto de uma sociedade exaltada que não admite ceder mais impostos para um sistema entendido como ineficiente e suspeito.

O instinto de preservação dos políticos é seu sentido mais apurado. A bolsa de especulações já ferve: Serra, Alckmin, Aécio – cada um por um partido – Paes, Temer, Marina, Ciro, Wagner… Não só Dilma vai se assemelhando ao governo Sarney, como também sua sucessão se delineia daquele modo: uma mancheia de candidatos e muita indecisão. Por ora, isto já basta para fragmentar o governo e esvaziar o poder da presidente. Mais que multiplicar pães, Wagner precisaria transformar água em vinho.

Vai-se um Cunha, vem outro: pode chamar Picciani, Quintão, Heráclito ou Vasconcelos. Improvável que o governo retome a agenda com o ímpeto necessário para mitigar males já causados; mais que discutível que supere, no curto e médio prazos, os problemas fiscais; implausível que se reinvente politicamente, expressando novo rumo e nova força agregadora. Ainda que contasse com a boa vontade do mundo, do PT e do PMDB, Dilma, mesmo com Wagner, não parece capaz de rearticular o sistema político em torno de si.

Alternando momentos de maior ou menor pressão, os dias seguirão plenos de dúvidas. O impeachment – ora mais, ora menos viável — será um espectro a arrastar correntes pelos palácios, tribunais, plenários e redações; até mesmo nas ruas. A crise crônica regurgita a si, expelindo uma pastosa acidez aguda: letargia, morbidez e agonia alternam-se com as calmarias que antecedem tsunamis. A incerteza é o dínamo da crise, que se alimenta de si mesma.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.