Entre as versões da história

O jogo vai se tornando mais dramático; há um empate no processo que não avança. Qual será o desfecho da crise? Há chutes de todo tipo. Em momentos de aflição, os modelos históricos surgem como fantasmas. Mas, também ajudam a raciocinar.

Carlos Melo

22 de setembro de 2015 | 18h38

A ansiedade é compreensível; normal que queime por dentro. Mas, o mais provável é que a crise esteja longe, muito longe, de um desfecho. Qualquer que seja o resultado, a presidente, o governo e o país sangrarão não apenas o bastante, mas muito além do que se poderia supor como inevitável em processos desse tipo. A crise não é de festim e nem impeachment é brincadeira de criança – ficamos mal acostumados com o caso de Fernando Collor de Mello.

Enganam-se os que acreditam que o processo retrate a força das instituições – este pode ser apenas mais um clichê. A não ser que não se considere governos, partidos e eleições – assim como a eficiência da economia – como parte das instituições, a crise engloba um sistema com muitos problemas – onde alguns atores, com efeito, funcionam e outros tantos estão longe de um mínimo de efetividade. Infelizmente, a crise não é só do PT. Mas, este é outro assunto.

O fato é que os caminhos para seu desfecho parecem obstruídos por dois grupos de fatores inegáveis e contraditórios. O primeiro deles: gostem ou não seus adversários, Dilma possui a legitimidade das urnas; sua candidatura vocalizou, tanto quanto a de seus opositores, bases sociais e visões de mundo legítimas (tanto quanto a de seus adversários). Se o processo foi conspurcado por mentiras, o fato é que o eleitor as comprou — sem absolve-lo ou infantiliza-lo, é preciso considerar que foi avisado e sabia do risco.

No mais, a adolescência democrática do país requer cuidados para não pôr a perder um processo delicado, custoso em alcançar e ainda em formação; desalojar a presidente sem provas cabais e incontestáveis tende a trazer muita confusão para o futuro. Sim, um processo de impeachment é antes de tudo político – desde Danton, não há como negar –, mas, é evidente que deixará marcas tanto mais perigosas quanto mais frágeis forem os argumentos jurídicos para o impeachment. Sem argumentos sólidos, será uma escolha de risco para o futuro.

Em que pese isto, — e este é o segundo grupo de fatores — a inabilidade da presidente e de seu governo é de estarrecer; o espetáculo de trapalhadas que têm apresentado é tão inédito quanto inadmissível para a elevada esfera de poder em que se processa; não há formuladores nem operadores capazes, seja na política como na economia. A situação se agrava e pressiona: a política requer o socorro da economia, mas a economia se vê comprometida pela política, um ciclo de terror.

No mais, a Operação Lava Jato tem levantado evidências de que dinheiro da corrupção teria regado as campanhas da presidente; isto terá que ser provado, mas a força da plausibilidade das suspeitas já enfraquece e pressiona terrivelmente o governo, o PT e mesmo importantes setores da base aliada e até da oposição. A manipulação desse lixo tem empesteado o ar e comprometido o ambiente com dúvidas, suspeitas, temor do que ainda pode vir pela frente.

De modo que é inegável que, em ritmo acelerado, Dilma vai mesmo ficando só; não consegue falar à nação e nem os atores políticos mais relevantes já a levam em conta — articula-se não apenas contra ou a favor da presidente, mas apesar e independente dela; para quem almeja e necessita respeito, essa situação é um desastre. A presidente não é do ramo e o zigue-zaguear de suas ações demonstra não saber o que fazer da crise, do governo e de si própria.

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São os dois lados; os dois conjuntos de fatores, a favor e contra Dilma. A força de ambos os neutraliza e gera impasses; empata o jogo. Como não há mais craques para resolver a peleja, tudo se arrasta e prolonga agonia, dramatizando o enredo, desde sempre travado por esses conjunto de fatores contraditórios.

De forma que nos últimos dias ganhou espaço a tese da renúncia. Com efeito, a retirada “espontânea” de Dilma abreviaria o processo e facilitaria a vida de seus adversários. Sem condições ou capacidade de governar, reconhecidamente só, dizem os oráculos, a presidente, nocauteada, jogará a toalha; em xeque, derrubará o rei sobre o tabuleiro. Ainda mais se lhe forem negadas as condições para o ajuste. Faz sentido.

Em política tudo pode ser – ainda mais no Brasil, aonde as vacas tossem –, por isso é que se especula muito. Já se disse também que presidentes da República não renunciam, são “renunciados” — levados à renúncia. Mas, em momentos como este, há grandes doses de wishful thinking — a propensão e, acreditar naquilo em que se quer acreditar.

Por que, afinal, Dilma facilitaria para os que a querem ver pelas costas? Porque abriria mão se não do poder – que se esfarela –, pelo menos da condição de vítima que lhe permitirá continuar na lida? Porque aniquilaria da retórica petista a denúncia de golpe (branco que seja), retirando da legenda a possibilidade de mobilização política, nos próximos anos? (Como defender alguém que desistiu?) A não ser que assuma o PT, no limite, como seu real inimigo, isto não faz muito sentido.

Mas, para compreender a racionalidade de Dilma é preciso levar em conta sua complexa idiossincrasia. Tanto adversários quanto aliados admitem que a presidente é “dura-na-queda”; não tem apenas o temperamento forte, mas opinião rija. Mesmo quando transige, encontra um jeito de ficar pelo caminho, relutando em admitir o recuo total, em reconhecer os erros. Tivesse outro temperamento, não teria chegado aonde chegou. Paga o preço pela dor e pela delícia de ser o que é.

Em virtude disto tudo, não custa imaginar qual versão da história esta crise contará ao futuro, e qual figurino mais interessaria à presidente. Neste momento, o governo vive a “sarneyzação piorada” que apontei em 23 de fevereiro (clique aqui para ler). Mas, qual será seu destino? Manter-se assim? Ou Dilma ficará nos registros de outro modo: entre uma espécie de Jânio Quadros ou um tipo João Goulart – sem a interferência dos militares –, como preferirá ser lembrada? Isto tende a influenciar sua racionalidade. Nenhuma das opções é naturalmente boa. Mas, é positivo que já possamos afastar desfechos a la Vargas ou Allende.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper

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