Eleição curta, campanha quente

Eleição curta, campanha quente

Carlos Melo

02 de outubro de 2020 | 19h44

Foto: Tiago Queiroz / Estadão

 

No Brasil, é relativamente fácil criar um partido e disputar eleição; negocia-se apoios e estabelece-se brigas já no processo eleitoral, entre primeiro e segundo turnos. Não há primárias e eventuais prévias raramente são pra valer. Os campos políticos são fragmentados, várias legendas lutam pelo mesmo espaço. Campos políticos são quintais ideológicos e sociais onde cada candidatura se localiza.  As primeiras e mais sutis disputas se dão nesses campos – depois é que transbordam para outros adversários.

O poder, as grandes máquinas partidárias e as lideranças agregam — ou agregariam — esses campos. Visto com olhos de hoje, Jair Bolsonaro, na direita; Lula, à esquerda e João Doria, no espaço difuso da centro/centro-direita seriam os aglutinadores. Mas, os desgastes de cada um, os elevados níveis de rejeição e o fim das coligações proporcionais, tornam a coesão dos campos muito mais difícil neste ano.

As pesquisas mostram, na largada, os líderes de cada campo: Celso Russomanno tem por detrás de si o recall de apresentador de TV, além do selo do presidente Bolsonaro. É seguido por Bruno Covas, que tem a vantagem da máquina municipal e está associado ao governador Doria. Depois, o esfacelamento da esquerda: num ineditismo, Guilherme Boulos (PSOL) está à frente do PT, mas não se sabe se terá o suporte do ex-presidente Lula.

Ao que parece, o PT perdeu o poder de aglutinação. Para Lula, será muito difícil defender Jilmar sem se melindrar com Boulos, espécie de seu sucessor simbólico, que com ele sempre esteve, fiel, no passado. Há uma forte tendência de, pela primeira vez em muitos anos, o PT não ser um dos protagonistas na Capital.

Mas, eleição é dinâmica; haveria ainda muita disputa, na rinha de cada campo. À direita, Russomanno não exerce grande fascínio sobre purismo radical da direita, tampouco deixa segurança de que desta vez não cometerá erro fatal. Joice Hasselmann (PSL), Arthur do Val (Patriota), Felipe Sabará (Novo) estarão no seu encalço: num esforço de revelarem-se “mais de direita”, “mais antipetistas” e mais identificados ao sentimento difuso de um bolsonarismo extremado. Não pouparão inimigo íntimo.

Ao centro, Covas busca o campo “nem-nem” — nem Bolsonaro, nem PT. É açulado por Márcio França (PSB), no conflito com seu desafeto João Doria e na tentativa de interfaces com o antipetismo – que continuará a ser explorado, mesmo com o PT debilitado. Também nas piscadelas na direção do bolsonarismo, que França tem sido acusado de emitir.

Para toda sorte, será uma eleição curtíssima, que disputará atenção com uma série de outras disputas. Os conflitos em cada campo serão acelerados, portanto, de modo a deslocar os que estão na frente. O grau de denúncias e pancadaria subirá rapidamente. A temperatura desta primavera será excepcionalmente alta.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

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