Doença

A sociedade é um corpo, seus órgãos são a economia, a segurança, o convívio, a paz da comunidade. A política é como o sangue: circula pela veias, rega os órgãos, oxigena o sistema cerebral, a democracia. O Brasil vive sua guerra particular com a enfermidade.

Carlos Melo

31 de maio de 2016 | 23h02

A natureza de qualquer sistema vivo consiste em lutar pela própria vida; tanto quanto possível, perpetuar a si mesmo. Doente, o corpo produz anticorpos e combate os males que o abalam; viver é sua razão. A tendência é purgar impurezas, livrar-se do que o corrompe. Mas, há disputa: bactérias, carcinomas e vírus possuem lá suas manhas; reagem, se reorganizam, transmutam-se. O corpo vive de batalhas. Médicos, curandeiros e xamãs são chamados; é impossível vencer a guerra sozinho.

A sociedade é um corpo, seus órgãos são a economia, a segurança, o convívio, a paz da comunidade. A política é como o sangue: circula pela veias, rega os órgãos, oxigena o sistema cerebral, a democracia. O Brasil vive sua guerra particular com a enfermidade. Não se trata de uma guerra civil e nem deve ser; a luta é menos explícita, mais canhestra e intestina. O sangue, repleto de impurezas, precisa purgar o mal. Mas, o sistema não é mais capaz de faze-lo sozinho.

Médicos, curandeiros e xamãs são, na democracia, as lideranças políticas que o corpo – com maior ou menor sabedoria e qualidade — produz. Buscam em seus receituários os remédios mais eficazes e propõem terapias contra os males, a favor do bem-estar do corpo. A inteligência é seu principal instrumento; o consenso, a cirurgia bem sucedida.

Mas, como dar conta deste desafio quanto a doença localiza-se justamente na própria política, o mais elementar componente, o sangue, da liderança?

Difícil dizer. Necessário pensar, colher elementos, juntar fragmentos, reunir informações; recorrer as metáforas — como se faz aqui — para melhor entender o distúrbio que se instalou. Certamente, não é razoável fazer desde já um balanço definitivo do governo interino de Michel Temer; é cedo. Tampouco cabe o julgamento moral a respeito do processo, se, ao final, o propósito é salvar o doente. Na crise aguda, pouco valem vereditos e juízos valor, que, a seu tempo, a história fará.

O fato é que, em nome da purificação, Dilma Rousseff e seu partido foram praticamente extirpados do corpo. Mas, mesmo assim, o mal não cessa: a febre continua e até recrudesce. O corpo sofre de espasmos, síncopes, solavancos que comprometem seu funcionamento geral. Em vista disto, o mais provável é que Dilma e o PT não fossem a origem dos males, mas apenas efeitos – parte putrefata do tecido. Mesmo o PMDB e seus vírus oportunistas aliados não passam de sintomas de necrose maior e mais profunda.

O mal está no sangue: na forma como se processou a política ao longo do desenvolvimento do corpo. As drogas, os hábitos, os vícios afetaram seu funcionamento. Elementos menores: o cargo, a emenda, o curral alienaram as vitaminas que surgiam — poderiam surgir — dos projetos de país, da representação ampla, busca de uma sociedade melhor e justa para todos. Nisto, atrofiou-se o nervo ético, rompendo os ligamentos entre a realidade, a esperança e a utopia.

Mesóclise de tantos verbos mal declinados de nossa tradição patrimonialista, Michel Temer creu que a economia fosse a solução pela qual não necessitar-se-ia atacar o problema central; que tudo o mais — o sangue envenenado da política — pudesse ser obliterado. Não pode.

Interino de permanentes expectativas, formou uma realmente respeitável junta médica, sua equipe econômica. Bem formada, em seu campo de especialização sabe  o que fazer. A economia, com efeito, pode rapidamente ser recuperada; há, sim, remédios amargos, mas a terapia é conhecida e foi mundialmente testada. Mesmo aqui no Brasil já exibiu sua qualidade comprovada. Formalmente, é simples: basta que o corpo acredite na recuperação e se submeta a choques e dietas. A base é a credibilidade dos médicos.

Mas, o problema não está ai, nesse órgão econômico, mas naquilo que o rodeia: o sangue que o rega, a política que o infecta. Os rins – o Congresso Nacional – que teriam a tarefa de purificar esse sangue já não funcionam a contento; não filtram impurezas e estão repletos de cálculos que os debilitam. Incapazes de drenar e renovar o sistema, a democracia, o mau funcionamento dos rins eleva a pressão arterial, anunciando o risco de uma isquemia cerebral.

Pelo menos um desses rins, a Câmara dos Deputados, parece definitivamente comprometido; um tumor em forma de cunha surgiu de suas disfunções e desvirtuou completamente o processo — verdade, desde sempre torto. Hoje, não há comando, não há controle. Ressentido do membro que já perdeu, esse rim  age por reflexos caducos. Incapaz de promover o novo, requer mesmo um transplante urgente que, no entanto, parece impossível.

No outro rim, o Senado, há uma fissura, o hilo – de onde entram em saem os vasos, nervos e cálices – que também se encontra vulnerável. Esse hilo, acreditava-se, seria o único elemento realmente funcional no conjunto disforme do Senado. Mas, num trocadilho infame, dir-se-ia, com nova temeridade, que os calheiros renais estão prestes a ser obstruídos e assim igualmente afastados como as cunhas e as dilmas dos outros órgãos. Parece se tratar apenas de uma questão de tempo.

A situação geral é de alerta: grossos ou delgados, os intestinos estão cheios; delações são inevitáveis, gravações internas demonstram o borbulhar dos gases. Externamente, um jato de lavagem foi introduzido no doente. Ele expele as impurezas é fato, mas, ao mesmo tempo, rasga, machuca, detona a morfologia dos órgãos. Esse jato vai promovendo sua destruição criativa — ou sua criação destrutiva; não se sabe ao certo. Concretamente, mais delações vêm por ai. Ansiosos, os amigos do corpo se agitam. Ninguém quer seu mal, mas seu fim será evitável? A imprensa especula: que fazer?

Incisiva, a equipe econômica busca respostas: corta, emenda, costura; prescreve remédios, anestesias e vitaminas. Faz sua parte. Mas, diante do colapso mais amplo, queda-se, então, impotente – ou parcialmente impotente: a política não é sua área e não se deve esperar que também aí traga lenitivos, laxantes, paliativos. A enfermidade é resultado de longo período de abusos; de uma vida desregrada, fisiologicamente corrompida. A doença, então, resta agora como a lógica do presente. Mais lentamente o corpo reagirá, posto que o fará por si, sem auxílios. A dor é inevitável.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.