“Deus esteja!”

Trata do barulho das ruas, da verborragia e do silêncio das autoridades. Da inconseqüência e do risco do momento.

Carlos Melo

08 de setembro de 2016 | 19h19

A diferença entre antecipação e precipitação é um grão; neste momento, o grão se debate nas lutas e nos cálculos da percepção do potencial de agitação das ruas e com a, até aqui, pouca efetividade do governo. Sim, se é precipitação dar o governo Temer como um fracasso consumado, tampouco é possível crer em seu inexorável sucesso. As condições em que se movimenta e, sobretudo, a qualidade de sua ação, no mínimo, alertam: há riscos já ponderáveis; sérios. Nada será como os otimistas supunham; não se faz um impeachment sem consequências. O de Collor foi brincadeira.

As manifestações do “Fora Temer”, por exemplo, mais que previsíveis, eram óbvias. Jus Sperniandi. Nos limites da democracia e sem violência, são tão legítimas quanto as mobilizações pelo “Fora Dilma”. Um país politicamente saudável convive bem com a diversidade de interesses e valores, com as duas turmas. E até as precifica nas estratégias dos agentes políticos e econômicos – o bom governo é aquele que se antecipa. Incrível que isto não estivesse nos radares da rodada turma do PMDB.

A começar pelo próprio presidente, o governo reagiu mal ao buscar desqualificar as manifestações. Se foi pensado, foi um tiro no pé. Algumas pessoas não nasceram para a ironia; a provocação de Michel Temer em relação às “quarenta pessoas que quebram carro” é exemplo disto. Revela, ao final, um erro ao qual um político realmente experiente não deve se dar ao direito. E, na situação presente, muito menos ao luxo.

O tempo dirá se o presidente lançou um bumerangue que lhe voltou à testa, mas desde já se compreende que, mais que uma frase infeliz, foi um cálculo desastroso para quem diz pretender – e precisar – pacificar o país. Seu chiste da china, fez piorar o humor e as manifestações crescerem. Enquanto isso, seu secretário-geral, Geddel Vieira Lima, batia boa pelo Twitter como se pudesse surfar nas ondas da provocação e da inconsequência. Não pode.

Outra lambança: como em 2013, mais uma vez o governador Alckmin e sua Polícia Militar entraram em cena como quem leva galões de gasolina à festa do fogo. Que a PM paulista é truculenta já se sabe; mas foi posta em questão se é também politicamente repressiva. Não sendo, o fiasco fica por conta da comunicação do governo, incapaz de demonstrar que antes a polícia reage aos excessos de parte dos manifestantes do que por moto e projetos autoritários. O que será?

O governador não esclarece e até confunde com figurino de durão que não lhe cabe bem. Sua retórica furibunda agrava a situação e lhe compromete a reputação e o futuro. Menos ainda ajuda que fique em silêncio quando seu comandante da PM debocha do destino de uma estudante que perdera a vista num dos embates com a tropa. A sensatez foi morar aonde?

Sinal evidente de que as coisas estão mal encaminhadas é que as manifestações do “Fora Temer”, que deveriam minguar pelo fato consumado, vão, ao contrário, se fortalecendo.

Vão num crescendo, numa escalada. É difícil de prever em que ponto possam chegar: muitos dos manifestantes afirmam não se tratar de um “Volta Dilma” – o que seria impossível – ou de um reforço ao destroçado Lula; mas de uma corajosa e necessária defesa do democrático direito à expressão. Nesse espírito, pedem eleições diretas e tentam atrair parte da sociedade que ficou contrária ao PT, mas nem por isso morre de amores por Temer ou pelo PMDB — também alvo da Lava Jato.

Já há articulações em busca de algo mais concreto que o simples protesto. Com a promessa de reviver o glorioso clima da campanha das diretas-já, de 1983/84, atos e comícios repletos de artistas estariam sendo organizados. Nostalgia, romantismo, princípios, ressentimento ou realidade? O tempo dirá.

O problema é mesmo o tempo: enquanto ele corre, as fragilidades do próprio movimento agem como fagulhas para a combustão geral: ter o PT à frente do processo parece uma má escolha que, ao mesmo tempo em que cresce na contestação a Temer, também se consolida como barreira àqueles que, embora não morram de amores pelo PMDB, nem por hipótese admitem a volta o PT ao controle do país. Contra ou a favor, a volta do PT parece delírio, mas é impressionante como há seres delirantes, neste momento, no país.

Logo, se os propósitos das manifestações do “Fora Temer” forem mesmo de princípios –democráticos, vinculado à garantia de direitos civis –, a partidarização dos protestos pode significar um brutal erro tático e estratégico: aguçam conflito, radicalizam o clima político, e fecham às portas para qualquer diálogo. Diálogo imprescindível, em horas como estas.

Certo ou errado, justo ou não, grande parte da sociedade – se não ainda a maioria – encara o PT como seu grande antagonista. Não haveria acordo sobre isto; o fantasma da improvável ressuscitação de Lula arrasta correntes; faz correr aos terreiros e exige despachos. Um movimento “Fora Temer “identificado com o PT desperta a reação dos contrários ao antigo partido cuja esperança venceria o medo.

Tomara que não — isto ainda é especulação; oxalá precipitação –, mas o clima pode, assim, se radicalizar. Posições sectárias afetando expectativas comprometendo ainda mais a economia sem perspectivas mais céleres investimentos e diminuição de desemprego. Com crise fiscal, sem o colchão de políticas sociais, a contestação e os conflitos só aumentam. É tal circulo vicioso. O caldo de cultura para a emersão da besta do populismo de esquerda ou de direita pode estar sendo cozido.

O problema maior é que faltam forças políticas para administrar o processo e leva-lo a porto seguro; tramar a conciliação das ruas, erguer pactos; reverter expectativas. Quem o faria: Temer, Lula, Aécio, Alckmin, Serra, Marina, Ciro, Bolsonaro? Há nulidades, sobram incendiários. Quem será o bombeiro?

Diz-se que Golbery do Couto e Silva, chefe do Gabinete Civil de Geisel, naqueles anos de chumbo, teria chamado Thales Ramalho, secretário-geral do MDB, e combinado: “vocês seguram os seus radicais e nós seguramos os nossos”. Hoje, não parece haver ninguém com disposição para isto – nem para falar, nem para escutar. Solto e sozinho, “o diabo na rua, no meio do redemoinho”, assusta. Que seja por precipitação. Como diria Riobaldo, “deus esteja!”

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: