Com os olhos em 2022

Com os olhos em 2022

Carlos Melo

29 de novembro de 2020 | 18h23

Qualquer eleição começa quando são fechadas as urnas da eleição anterior. Encerrada a votação de 2020, os olhos se voltam para 2022 – os de Jair Bolsonaro lá estão, aliás, há mais tempo. Natural que, no sufoco de um ano terrível, se queira enxergar o futuro. E o futuro, sempre incerto, começa a ser especulado desde já.

Em política, dois anos são uma eternidade; nas conduções atuais, hiperbolicamente, são duas. O sistema político ainda se ressente de 2018, quando o eleitor votou para destruí-lo. Abriu-se a Caixa de Pandora, de onde maldições e desgraças ganharam liberdade, ficando confinada apenas a esperança.  Será possível reconstruir o sistema político e a esperança para 2022?

Vários agentes políticos defendem abstrata ideia de uma “Frente Ampla” para derrotar Bolsonaro. O problema é que todos se projetam sendo “a frente”, deixando aos “outros” a responsabilidade de ser “amplo”. A centro-direita busca emparedar Bolsonaro; o centro quer expandir-se para os lados; a esquerda sonha com a “frente progressista”, sem ter clareza do que seria “progressista”, no seu entendimento. O certo é que o diabo está nos detalhes; os impasses surgem já na partida.

A eleição municipal poderia ter começado a aglutinar o antibolsonarismo. Isso ocorreu no Rio de Janeiro, onde Eduardo Paes reuniu forças contra Marcelo Crivella, representante do presidente na terra. Mas, como o bolsonarismo esteve ausente da maior parte do segundo turno, foram centro e esquerda que se engalfinharam – e se dividiram. No final, isso não foi ruim para o presidente. É irônico, mas sua derrota em 2022 dividiu os adversários, o que pode ter-lhe dado fôlego.

Essa é a história da eleição em São Paulo: deu a lógica. Mas, a ausência de Celso Russomanno no segundo turno deslocou o centro para a direita e fez a esquerda mais aguda. Da disputa, não saiu um campo de enfrentamento ao bolsonarismo, mas dois núcleos que somam zero. Vinte e tantos por cento de votos podem levar Bolsonaro ao segundo turno de 2020, fazendo-o sonhar com adversário de igual tamanho, medindo rejeições e nada mais. O jogo está começando; quem vai jogar?

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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