Cinco condições para um impeachment

Cinco condições para um impeachment

Carlos Melo

03 de julho de 2021 | 18h57

Foto: Carlos Nealdo/Estadão

As ruas falam em impeachment com naturalidade maior que antes. Política é processo, por isso é conveniente que se especule em torno de seus sinais. Observados casos passados, depreende-se que impeachments dependem de cinco condições: insatisfação econômica; fato determinado; forte mobilização popular; fragilidade parlamentar; amplo acordo político envolvendo, inclusive, algum tipo de aquiescência do vice-presidente da República.

O governo bate o bumbo da recuperação econômica, mas são inegáveis os sintomas de mal-estar: desemprego, desalento, milhões desprotegidos, na informalidade, perda de renda com a inflação. Tudo incontestável e não importa se o País, um dia, se recuperará. Política é processo e timing. O governo patina nessa área e o fato é que o “posto Ipiranga” não entrega o que promete.

Já fatos determinados não faltam: além do desproporcional número de vítimas da Covid, mais de uma centena de denúncias sustenta um “superpedido” de impeachment. Processos no TCU têm, agora, a companhia de inquérito formalizado na Procuradoria-Geral da República. Até às cortes internacionais o nome de Jair Bolsonaro foi levado. No mais, a CPI é um manancial de fatos novos. Falta disposição a Augusto Aras e a Arthur Lira, peças-chave para o impeachment. O que nos transporta ao próximo ponto.

Ainda não se fez o balanço narrativo das manifestações deste sábado. Os números, contudo, estão longe de desprezíveis. O intervalo entre esses eventos foi reduzido e a quantidade de pessoas sem “vermelho” no figurino parece ter aumentado. Impulsionadas pelas vacinas, é possível que as manifestações se ampliem, num processo difícil de estancar. Não há político ou agente público indiferente às ruas.

A fragilidade parlamentar decorre disso, mas também de conflitos na base. O velho centrão é multifacetado em interesses e choques de grupos – encontrões entre os grupos de Arthur Lira e Ricardo Barros são frequentemente noticiados. A voracidade fisiológica produz o genocídio nas bases. Pragmático, o Centrão vive de projetos viáveis e continuados de poder. Bolsonaro garantirá isso até quando?

O amplo arco de acordos parece amadurecer: políticos de vários matizes e ex aliados do governo aderem às manifestações e aos pedidos de impeachment. E, ao polarizar com Lula e fortalecê-lo, Bolsonaro torna-se disfuncional para quem rejeita o petista, sobretudo. Recomeçar o jogo, sem o atual presidente, passa a ser uma possibilidade. Resta o vice, que, como as ruas, ao seu modo também emite sinais.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper

 

 

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