As curvas dos gráficos contam a história da eleição

As curvas dos gráficos contam a história da eleição

Carlos Melo

14 de novembro de 2020 | 20h08

Há meses, as pesquisas mostravam que Celso Russsomanno disparava na corrida eleitoral e que Bruno Covas carregava o desgaste da administração, não despertando empolgação em quem acompanhava o processo à distância. O PT, tradicionalmente competitivo na cidade, apostava na mística da militância; Márcio França prometia repetir o desempenho de 2018; Guilherme Boulos era mais um azarão, apêndice do PT. E os padrinhos — Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva e João Doria — pairavam sobre os mortais; dizia-se que seriam decisivos.

Pesquisas são fotografias, nada disso aconteceu; política é filme. Somente o processo, observado nas curvas dos gráficos que as ilustram, pode dar ideia do que foi, de fato, uma eleição. É para eles que se deve olhar, para a dinâmica que expressam: na ponta da curva da pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo, desta véspera de eleição, vê-se que Russomanno era apenas o mais conhecido, o mais polêmico, talvez o mais folclórico; que a visibilidade na pandemia, a máquina e a precariedade dos adversários não poderiam ser desprezadas — e isso de fato parece ter pesado a favor de Covas.

Mais: que o PT pode estar vivendo sua mais decisiva crise, paralisado na teimosia da repetição de velhas formas, na resistência de buscar o novo; que Guilherme Boulos pode estar a se revelar como o novo astro da esquerda nacional, a despeito e por cima do PT; que as eleições de 2018 não podem ser parâmetro para outras. E o mais importante: que os padrinhos, mais desgastados e rejeitados do que queridos, se revelaram obsoletos – no caso de Bolsonaro, de modo mais acelerado do que se imaginava. No mais, candidatos antes inexpressivos assim permaneceram; um tapa em qualquer vaidade.

Na véspera, a fotografia revela Bruno Covas tranquilo à espera de adversário, sonhando com ventos que o façam liquidar já a fatura eleitoral, como se deu com João Doria em 2016. Desejos à parte, para Guilherme Boulos, Márcio França e Celso Russomanno o segundo lugar parece ter se tornado algo mais importante do que ir ou não ao segundo turno, pois olham para o destino que terão depois da eleição. Difícil dizer o que será; a eleição acontece a cada dia e ainda falta um. O eleitor dirá.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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