Antibolsonarismo é maior força política do País, mas perde potência para o impeachment se permanecer dividido

Antibolsonarismo é maior força política do País, mas perde potência para o impeachment se permanecer dividido

Carlos Melo

12 de setembro de 2021 | 17h09

Foto: Taba Benedicto/Estadão

A carta de Michel Temer, em socorro a Jair Bolsonaro, parece ter esmaecido a sensação de que a democracia do Brasil pode desmoronar “feito um viaduto”. E, assim, ressentimentos nascidos nos governos petistas, no impeachment de Dilma Rousseff e na eleição de 2018, prevaleceram sobre a disposição de muita gente ir às ruas gritar “fora Bolsonaro”.

A manifestação marca o descontentamento de boa parte da população, mas ficou aquém do potencial do antibolsonarismo. Sem ser gigante, não se configurou num marco na direção do impeachment. Vetos múltiplos, e a incompreensão de que se luta uma luta por vez, normalmente, somam zero.

A ausência de lideranças capazes de fechar feridas comprometeu o potencial do protesto e gerou desconfortos com o resultado. O grito retumbante do antibolsonarismo, hoje maior força política do País, ainda não foi dado.

Fragmentado em interesses eleitorais e por tais ressentimentos, o antibolsonarismo perde oportunidade de exercer pressão sobre o Congresso Nacional e sinalizar para as Forças Armadas. Ao dividir-se em manifestações dispersas, fica menor.  A oposição passa a se resumir em esperar a próxima manifestação.

O processo de impeachment – do qual brasileiros são especialistas – é gradativo, mas requer saltos. Sempre carecerá do estrondoso rugido das ruas.  Não foi desta vez; Bolsonaro se acalma e o Centrão sorri.

Se é certo crer que um golpe no Brasil não teria dia seguinte, é conveniente considerar que desatinos não se prendem a cálculos racionais. No Brasil, a esperança ainda é equilibrista e sabe que a democracia anda “na corda bamba de sombrinha”.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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