Antes tarde que mais tarde

Antes tarde que mais tarde

Carlos Melo

16 de fevereiro de 2021 | 19h26

Foto: Ernesto Rodrigues/Estadão

 

Edson Fachin reagiu com justificada indignação: na democracia, a Constituição é soberana e as instituições a ela se submetem. O livro do ex-comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, traz, assim, uma aberração: generais não dizem a juízes ou a ministros do Supremo o que fazer; nem o que admitem ou não. Fachin está certo. Mas, com três anos de atraso, cabe perguntar: o relator da Lava Jato se indignou com a revelação de um Segredo de Polichinelo ou com seu conteúdo?

A história é conhecida e as memórias do general não trazem novidade: no Brasil, o temor da sombra militar, infelizmente, nunca se dissipou; continua influenciando, se não submetendo, a política e as instituições. Ingenuidade, talvez, tenha sido crer que o país havia superado seu fantasma. A surpresa não mora no tweet do general, nem na consulta que fez a seus pares. Mas na reação retardada de agentes institucionais que somente agora se manifestam. Não se sabe se o silêncio de então se deveu à distração, à conivência ou à omissão. Fachin não foi o único.

Também o presidente da República à época. Constitucionalista e comandante em chefe das Forças Armadas, Michel Temer, no esplendor de seu cargo, igualmente fez ouvidos de mercador. Villas Bôas era subordinado; imperativo que Temer fizesse valer o poder civil. Calou. “O que querias que fizesse, ‘se sabias que não era Deus, se sabias que eu era fraco?’”, replicaria o poeta. Circunstâncias produzem presidentes, nem sempre conseguem parir líderes. Instituições não funcionam no vazio, não prescindem de lideranças.

Passados três anos, o fato é que, de omissão em omissão, o país se enredou numa trajetória ruinosa que debilita sua democracia. A despeito de o atual comandante do Exército, general Edson Pujol, diferenciar-se do antecessor ao se manter discreto – como deve ser –, o fato é que a influência militar se expandiu errática por todo o governo, comprometendo até mesmo as Forças Armadas. A reação de Fachin parece tardia. Em todo caso, antes tarde que mais tarde.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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