Análise: Em queda livre, e sem o mítico colchão de proteção popular

As condições de governabilidade do governo Dilma estão a cada dia mais precárias. O colchão de segurança popular que o PT sempre teve parece ter diminuído, muito.

Carlos Melo

19 de março de 2015 | 11h38

Publicado  no impresso, de O Estado de hoje (19.03.2015)

 

Em 2005, no auge da tensão do mensalão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ameaçou acionar o dispositivo popular do PT e dos movimentos de sua esfera de influência. Colocaria o “povo na rua”. Impressionada com o “chavismo” e temerosa pelo Brasil, a oposição preferiu colocar freio a escalada de um impeachment. Avaliou que derrotaria Lula nas urnas, na eleição do ano seguinte. Já é história, mas dali se depreende que havia uma crença na capacidade mítica de mobilização de Lula e do PT.

 

Três episódios recentes, porém, evidenciam que pode não ser mais assim: 1) a manifestação do dia 13, em apoio ao governo Dilma Rousseff, ficou muito aquém do que se esperaria em condições tão aflitivas para a presidente – na comparação com o dia 15, será difícil não admitir que o dia 13 foi quase um fiasco; 2) o documento vazado da Secretaria de Comunicação, ao qual o Estado teve acesso, admite sem rodeios que a militância virtual do PT abandonou o governo e aponta textualmente uma goleada: “Estamos entrando em campo perdendo de 8 a 2”; e 3) na última pesquisa Datafolha, o ponto mais surpreendente são os pífios 13% de avaliação “ótimo/bom” – mais relevante que os 62% de “ruim/péssimo”.

 

O PT teria perdido seu maior patrimônio, sua base social, e sua capacidade de mobilizá-la? FHC, em seu tempo, é verdade, esteve nesse mesmo patamar (13%), mas contava com condições mais sólidas de apoio nos partidos e não havia um caso nas dimensões da Lava Jato a pressioná-lo. Enfim, é possível que este seja o fato mais pleno de consequências: o governo Dilma pode estar absolutamente descoberto, sem o colchão de proteção que se imaginava ter. A tendência é que fique mais à mercê dos aliados do Congresso e da oposição e da fúria das ruas, com pouca força para reagir. Se o fará ou não, somente a história dirá.

 

CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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