Ainda no labirinto

Natural que alguma força surgisse para moderar o processo e evitar o imprevisível. Mas, nunca se sabe se o conflito não passou de um ponto sem retorno.

Carlos Melo

17 de agosto de 2015 | 12h33

Semanas atrás, escrevi um artigo que recebeu alguma atenção de internautas e amigos; intitulei “O caminho para o labirinto” (clique aqui para reler), e ali tentei descrever o processo que levou o governo à alucinante e negativa dinâmica em que se encontra. Vários analistas têm se servido da metáfora “labirinto” – não saberia dizer se antes ou depois de meu texto; nem importa. O fato é que seu uso revela o clima: o país foi dar num lugar em que há escassez de saídas, um ambiente de exasperação como se uma besta-fera, o Minotauro, ocupasse seu centro e pudesse nos destruir a qualquer momento. É exatamente isto o que uma crise significa: falta de saídas e medo. O sentimento de que entramos numa enrascada.

Nos últimos dias, no entanto, se desenvolveu a percepção de que alguma coisa mudou – impressão compartilhada pela oposição, inclusive: o governo Dilma, se não se recuperou, pelo menos, ganhou fôlego no confronto de seu labirinto. Para os mais otimistas, se vislumbra uma nesga de luz, uma saída; tentam se convencer de que no labirinto particular em que a presidente, seu governo e o PT se meteram há, agora, pelo menos um caminho de volta.

Pode ser. De tanto bater com a cabeça, um dia o muro racha e as brechas podem ser exploradas como saídas. Assim como quem, depois de muito tempo, se depara com um anel, uma carta, um objeto qualquer dado por perdido, esquecido numa gaveta improvável de uma cômoda qualquer, as soluções, às vezes, se conformam e surgem do nada. De modo que, se alguma saída surgiu por estes dias de agosto, ela parece tão fortuita quanto instável, como um anel de valor suspeito, reencontrado ao acaso.

O que parece ter-se dado é, assim, menos por mérito do governo do que pela ação de terceiros. Pelo que se depreende, o establishment – poder de verdade – entrou em cena: grandes empresários, setores de comunicação, pesos-pesados da economia e da política ficaram realmente assustados; assumiram a responsabilidade de mediar conflitos e impor alguma racionalidade ao alucinante jogo de perde-perde que se jogava.

Com efeito, os adversários de Dilma também contribuíram para o despertar de todos os alertas e, inadvertidamente, acionaram os bombeiros que agora tentam apagar o fogo que eles propositadamente ateavam. Foram, assim parece, com muita sede ao poste — como diria um antigo dirigente do PT, caído em desgraça, no mensalão — e quebraram a cara. Na Câmara, Eduardo Cunha transformava o parlamento numa usina de desatinos fiscais, geradora de conflitos e de imprevisibilidade; um pastor da tocar trombetas do Apocalipse,  calcinando o futuro, aterrorizando a todos. Passou do ponto e demonstrou que não é assim tão hábil quanto quis fazer crer.

No dividido PSDB, parte de suas lideranças não apenas colaboravam como incentivaram a obsessão de Cunha, remetendo ao lixo a história dos próprios tucanos. A parceria Eduardo Cunha / Carlos Sampaio foi um primário show de oportunismo e horror: levar o país a uma nova eleição — assim-assim, sem cuidado e sem rigor — pareceu mesmo uma aventura perigosa; muito além de um jogo de risco calculado. Sob o comando de Cunha, o país suportaria a impugnação da chapa presidencial e uma nova eleição em 90 dias? Como controlar o processo?

O PT — com seus desatinos, sua morte em vida — pode não ser sombra do que um dia foi, mas a estratégia Cunha-Sampaio dava à legenda tudo o que os pragmáticos do partido pedem aos deuses da história: a saída honrosa da vitimização. Certo ou errado, proclamar o golpe e abraçar a retórica do herói impedido de transformar o mundo, por traído, destronado, injustiçado “por forças terríveis”, seria uma saída interessante; um Prometeu Acorrentado para chamar de seu, sem o passivo de Dilma. A partir de então, possibilidade de reconstruir o mito sebastianista de um Lula redivivo.

Dilma não é José Dirceu – o anjo decaído por quem, agora, ninguém mais verte lágrimas –; nem Lula, o zero à esquerda que, precipitadamente, alguns já proclamam. O impeachment sem provas cabais, – a tal cueca sem o batom –, conduzido por mãos tão pouco hábeis, como as de Cunha e Sampaio, parecia estratégia, de fato, assaz arriscada: não encerraria o processo de horrores que o país, dividido, tem vivido, e abriria as portas de um conflito mais longo e imprevisível, com reflexos ainda maiores na economia. Como não havia escolha boa a fazer, o poder de verdade resolveu escolher o menos ruim entre dois péssimos: dar tempo e fôlego a Dilma.

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Claro, o melhor-melhor-melhor – para o país – seria que Dilma se recuperasse, que tudo fosse esclarecido, que os corruptos fossem punidos, que a confiança fosse rapidamente retomada e a economia “bombasse”; tudo sem abalos institucionais, sem conflitos; país do futuro, paz, amor e felicidade, etc, etc, etc… Mas, se nem Gisele Bundchen é mais unanimidade; que dizer da política? O ideal vive em outro planeta, numa galáxia que não conseguimos conquistar. Melhor esquecer.

Com efeito, mais cedo ou mais tarde, alguma força se imporia àquela dinâmica perniciosa. Sistemas políticos e de poder, naturalmente, se protegem; em legítima defesa, agem contra a imprevisibilidade, tentam (pelo menos) evitar a ruína. Causa espécie que não o tivesse feito há mais tempo. Eis aí mais um sintoma da crise de liderança.

O problema é que não há “acordão” que dê conta de todas as variáveis que estão sem controle: a) o cenário econômico pouco alentador, no curto prazo; b) a imprevisibilidade da Lava Jato; c) o colapso da coalizão e a voracidade da base; d) a classe média urbana repleta de militantes radicalizados; d) uma parte da esquerda alucinada; e) a desconfiança que tende a cercar qualquer possibilidade de conciliação entre Rodrigo Janot e Renan Calheiros; f) a fidelidade e o heroísmo duvidosos de Renan Calheiros.

Concretamente, Renan não é Teseu; não encarna o herói capaz de liquidar o Minotauro. E muito menos é Ulysses (grego ou nacional). Nem Dilma, a Ariadne a desenrolar o novelo que indicaria  o caminho de volta do labirinto. Renan não pode garantir segurança, ainda que negocie a proteção que Dilma não tem como pagar e nem como resgatar. Definitivamente, são personagens que em nada se assemelham aos gregos — aos antigos, pelo menos.

A aristocracia, dentro de seu vasto campo de ação, tenta intervir. Mas, também é um tanto torcedora nesse processo; quem terá o controle de uma situação que pode chegado ao ponto sem retorno? Resgatar a combalida credibilidade implicaria em que tudo passasse a dar certo e muito rápido – o tempo joga contra o entendimento: Dilma não mais poderia errar, como o faz desde sempre; Renan e o PMDB careceriam domar sua índole de serpente; o PSDB assumir um papel mais elevado do que ao que tem se limitado. E a Lava Jato… Bem, a Lava Jato…  Tudo parece muito improvável. Continuamos no mesmo labirinto.

Carlos Melo, cientista politico. Professor do Insper.

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