Ainda é cedo — e outras formas de ceder e não ceder

Da eleição, seus ensinamentos e suas tentações.

Carlos Melo

13 de outubro de 2014 | 00h28

A eleição é tão móbile quanto a dona da ópera; como uma menina cheia de caprichos, ensina que não se deve, nem se pode prevê-la; que ainda é cedo para compreende-la. Dilma Rousseff, por exemplo, já foi imbatível – houve quem garantisse que levaria no primeiro turno. Depois, foi a vez de Marina Silva, que conheceu o céu e o inferno da disputa. Dilma voltou ao topo do favoritismo e, agora, Aécio Neves é quem lá respira ares de irrefreável alegria. É natural, mas ainda é cedo. Não se deve colocar a mão na taça. Analistas não querem passar para a história como “o Parreira da Política”.

Os times jogam  e a equipe do governo é habilidosa, bem treinada, experiente e – como qualquer partido decidido a manter o poder — não tem constrangimentos em fazer o que considerar que deva ser feito pela “continuidade do projeto”, como se diz. Cautela ante afirmações definitivas é o nome do jogo, em 2014. Melhor não ceder à ansiedade.

Aécio Neves cresce, dizem as pesquisas, a suspeita e – concedo — a intuição: o tucano vive bom momento. Ceteris paribus, estaria eleito… Acontece que em política o “tudo o mais constante não existe”; imperceptíveis, as nuvens se movimentam; ninguém as controla no seu processo. Ademais, algo diz que há muita gente que votará em Dilma que – em virtude de tudo — anda constrangida e não revela, precisando de estímulos e argumentos para fazê-lo. Foi assim com Collor, em 1989, ironicamente, contra Lula. Sabe-se lá com que armas se vai guerrear a guerra dos próximos dias.

A adesão de Marina

Eleição é fenômeno dinâmico: repleto de acontecimentos, adesões, críticas, ataques e contra-ataques. No segundo turno, o processo é ainda mais vertiginoso; tudo se precipita. Longe vai o tempo em que caciques procrastinavam e, por fim, conduziam as bases ao rumo pretendido. Claro que a adesão de Marina Silva é importante para Aécio Neves: não se despreza apoio, menos ainda de quem obteve 24% dos votos válidos; dá boas imagens para a TV e impulsiona o discurso mudancista. Mas é bem menos que o oba-oba que se faz. A maioria dos eleitores, aliados e assessores de Marina já haviam se posicionado e, como uma maré, arrastaram a ex-senadora para o mar das ondas do antigo surfista, Aécio.

Positivo para Aécio, mas, nesta altura, possivelmente, neutro para Dilma: ninguém perde o que nunca teve; nem ganha o que já é seu. Pela demora, pela espera, pela indefinição — e por ter “retirado” de Aécio menos do que exigiu programaticamente – foi Marina quem mais perdeu. Políticos mais sagazes sentem mais cedo o pulsar das ruas e se antecipam. Atropelada pelo fatos, Marina, mais uma vez, cedeu a reboque das circunstâncias. Como uma espécie de tardio romance de outono, tem valor. Mas, mais proveitoso seria pudesse, mais cedo, tê-lo vivido.

Pesquisas

Há muita contradição em relação às pesquisas; temos pesquisas e institutos para todos os gostos: além dos institutos tradicionais, há pesquisas encomendadas por grandes conglomerados econômicos; há trackings especializados e outros nem tanto; há os que vazam números e boatos de sua conveniência e também os que inventam pódios por oportunismo, estultice ou apenas para o circo pegar fogo. Nesse emaranhado, o melhor mesmo é se ater a dois pontos: 1) criteriosamente, escolher e dar fé a umas poucas fontes apenas, de melhor reputação —  desconsiderar as demais; 2) olhar para as tendências: quem está subindo e como sobe, porque sobe e quais as variáveis que sustentam esse movimento – ainda é cedo para se importar com diferenças e distâncias. Se já não é uma maratona, ainda há, porém, ladeiras e ruas esburacadas pelo caminho.

Volatilidade

O ambiente é de enorme volatilidade. Mesmo os eleitores que decidiram, de boa-fé – os que não estão presos a ódios, preconceitos ou interesses – têm dúvidas. E, portanto, se deslocam com aflição e ansiedade ao sabor dos ventos. Sim, depois de 12 anos, parece haver um esgotamento do projeto do PT; o governo Dilma precipitou esse processo com erros e teimosia; mas o governo, reconhecidamente, tem público e apoio em amplas parcelas da população. Além disso, para grande parte do eleitorado, a renovação proclamada por Aécio ainda não é vista com plena segurança; ainda não conseguiu demonstrar como fará o inevitável ajuste — que não descarta e até promete — sem causar desemprego. O emprego, dizem as qualitativas, é a maior preocupação da maioria. Este é seu desafio: demonstrar o mais cedo possível como pretende transportar a cristaleira, cheia e vulnerável, sem quebrar as louças e as taças.

A tal questão ética

Ninguém irá dizer que a “questão ética” não é importante. Mas, como tudo, ela precisa ser relativizada. Para grande parte da população, “primeiro [está] a barriga”, como dizia o velho Marx. A avaliação econômica é soberana; poucos são tão estúpidos para negar isto. Há pouquíssimas pessoas que satisfeitas com suas mais concretas condições de vida as substituem por questões de ordem abstrata, como transparência ou princípios republicanos. Nem a maior parte dos bem nascidos e alimentados o fariam se defrontados com a escolha. Quem percebeu melhoras no dia-a-dia não despreza ou substitui fatores de bem-estar por críticas éticas, por mais acertadas e justas que sejam. Chato dizer, mas, é tradição do país certa indulgência com o “rouba mas faz”, que na sabedoria popular está presente em todos os partidos.

Acontece que ao se transformarem as “condições concretas”, a “tal questão da ética” também pode se deslocar para o centro das atenções dos indivíduos. Pingo vira letra, quando não se tem dinheiro para ir à feira. E assim, a ética passa a ser pretexto para críticas mais duras — até ontem relevadas — aos governos de mau desempenho. Sim, não é lá um comportamento muito ético, mas parece ser assim. O eleitor mediano é, infelizmente, assim.

Portanto, delações premiadas que hoje ocupam o noticiário dos jornais e telejornais podem ser recebidas de um modo mais crítico sim, se, antes, as condições econômicas forem percebidas como declinantes e ou sob risco. O desafio para a oposição é não inverter a pauta, não ceder ao moralismo: primeiro, a economia; depois a Petrobras (em complemento). Já o governo, precisará convencer que tudo vai bem e que as denúncias de corrupção são… Bem, melhor não ceder à tentação de dizer o impronunciável.

Bater na madeira três vezes

Algumas palavras causam mal-estar, e não devem ser pronunciadas; são de mau agouro. No interior do país, ainda hoje, não pronuncia o nome do diabo, por acreditar que esta seria a forma de atrair o tinhoso. São termos pronunciados, na verdade, apenas no limite da tensão, da exasperação ou do oportunismo. No regime democrático, a palavra mais desagradável é golpe. É normal reconhecer que tal ou qual atitude mais arrojada seja do jogo; dizem que “faz parte”. Contudo, há limites. Golpes – como conspiração ou tergiversação – é coisa muito mais séria do que uma cotovelada ou um chute na canela. Não se deve usar esse nome em vão. Responsabilidade ao lançar mão dessa expressão deveria ser a primeira regra da nossa história. E, assim, bater na boca três vezes; lavar a língua com sabão.

Admitir essa hipótese é caminhar sobre as pedras do inferno; é admitir que o pacto político foi pelo ralo; que tudo vale e nada mais é proibido. Nem nas guerra de verdade pode ser assim. Nos últimos dias, se recorreu demais a esta expressão; a própria presidente da República a usou. Ara. Salve seja! Não convém urdir, suscitar ou despertar o demo. Não se convida vampiros para um cafezinho, em casa. Nunca é cedo para ser cuidadoso, pelo menos nesse aspecto.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper

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