A Revolta da Vacina de Jair Bolsonaro

A Revolta da Vacina de Jair Bolsonaro

Carlos Melo

21 de outubro de 2020 | 19h32

Testes da vacina contra a covid-19 Foto: Eric Gaillard/Reuters

O Brasil já teve uma revolta da vacina: foi em 1904, contra o presidente Rodrigues Alves (1902-1906) e o cientista Osvaldo Cruz, que combatiam a varíola, cujo vírus se espalhara pelo Rio de Janeiro, Capital de então. Um século depois, a humanidade foi à duas guerras mundiais, inventou a penicilina, chegou à lua e a alguns planetas; fez a Internet e pariu as redes sociais… E das redes surgiu Jair Bolsonaro que, num retorno ao princípio, faz sua revolta (particular) da vacina.

O discurso é contraditório, fruto de ideologismos e cálculo eleitoral. Não acredita na ciência, mas quer controlar a Anvisa com o argumento da segurança científica; seu libertarismo é contra a obrigatoriedade da vacina, mas a favor da criminalização do cultivo de maconha, por exemplo. É contra a união de pessoas do mesmo sexo e, se pudesse, o país teria religião oficial. A regressão é maior que um século.

Na cruzada a que se entrega, há evidente componente eleitoral. Não quer reconhecer valor em desafetos, como a ciência, a China, o governador João Doria. Não disfarça o receio de que a saída da pandemia venha logo dos chineses e, sobretudo, por São Paulo. É a corrida de 2022, que ele mesmo antecipou. Não tarda, a população perceberá o porquê de seu medo de vacina: qualquer que seja sua origem, ela recolocará a humanidade no século XXI.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

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